Mohamed Tadjadit: poeta do Hirak na Argélia enfrenta risco de pena de morte após novo processo
Poeta argelino Mohamed Tadjadit, associado ao Hirak, enfrenta novo julgamento com acusações de terrorismo que podem levar à pena de morte.
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Mohamed Tadjadit: poeta do Hirak na Argélia enfrenta risco de pena de morte após novo processo
Por Giulliano Martini — Correspondente Espresso Italia. Apuração em campo e cruzamento de fontes.
Mohamed Tadjadit, identificado como a voz de uma parcela jovem e insatisfeita da Argélia envolvida no movimento Hirak, voltou ao centro de um processo judicial que pode culminar em pena de morte. A mudança das imputações que agora o acusam de atos tipificados como terrorismo é descrita por especialistas da ONU para os direitos humanos como um expediente jurídico contestável.
Poeta e ativista, Tadjadit ganhou reconhecimento internacional ao receber, no ano passado, o prêmio Liberdade de Expressão na Arte da organização Index on Censorship. Seus versos, segundo análise de especialistas em literatura e direitos, tratam de desemprego, exclusão social e falta de oportunidades — em tom satírico — e não de incitação à violência.
Em março de 2022, Tadjadit foi condenado a 16 meses de prisão. A sentença foi posteriormente reduzida em instância de apelação, o que permitiu sua libertação cinco meses depois. Agora, contudo, um artigo do código penal argelino está sendo utilizado para reabrir o caso com acusações diferentes: “ataque armado”, “conspiração” e “ações contra a autoridade do Estado e contra a integridade do território nacional” — crimes que, no entendimento das autoridades, configurariam terrorismo e podem levar à pena capital.
Especialistas de direitos humanos das Nações Unidas qualificaram o uso dessa disposição legal como um “jogo de prestidigitação judicial”: a mesma conduta, julgada sob outra tipificação, para justificar um novo processo. Fontes independentes consultadas por esta redação classificam a manobra como uma vulneração ao princípio internacional contra o duplo juízo (ne bis in idem) e um risco claro à liberdade de expressão.
As poesias de Tadjadit circulam em redes sociais e em coletâneas independentes. Abaixo, trechos traduzidos da versão em inglês feita por Zaki Hannache e publicada pela Index on Censorship, que ilustram o caráter satírico e crítico de seu trabalho:
“Bem-vindos à nova Argélia. / Levamos em conta as vossas queixas. / Daremos notícias em forma de poesia. / Temos grandes projectos para vocês. / A renascença da nação não está longe… / Reconstruiremos a rotatória de Blida para vocês / E viverão a inovação connosco. / Queremos apenas o que é útil para vós… / Em breve o mar secará e nele colocaremos Saida [marca de água mineral]. / Surpreenderemos com as nossas ideias / E quem as criticar sofrerá graves consequências.”
Para analistas ouvidos pela reportagem, os versos evidenciam crítica política e ironia, não apelo a ações armadas. Ainda assim, as autoridades argelinas enquadraram os mesmos conteúdos em um contexto jurídico que lhes permite tratar o autor como provável partícipe de uma trama violenta.
Organizações internacionais de defesa dos direitos civis alertam que a escalada das acusações contra Tadjadit pode ter efeito dissuasor sobre a dissidência cultural e política na Argélia. O caso também reaviva discussões sobre a independência do judiciário no país e sobre o uso de normas penais para conter vozes críticas.
Esta redação continuará acompanhando o desenrolar do processo, com levantamento de documentos judiciais e entrevistas com especialistas em direito internacional e liberdade de expressão. Relatos in loco e cruzamento de fontes serão atualizados assim que novos elementos forem verificados.
Crédito da tradução dos versos: Zaki Hannache / Index on Censorship. Reportagem registrada e verificada pela equipe de correspondência em Argel.