Zonas vermelhas são uma ilusão: promessa de segurança encobre vazio operacional

Zonas vermelhas viraram rótulo: promessa de segurança esconde medidas simbólicas e falta de recursos. Veja por que não resolvem o problema.

Zonas vermelhas são uma ilusão: promessa de segurança encobre vazio operacional

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Zonas vermelhas são uma ilusão: promessa de segurança encobre vazio operacional

Por Giulliano Martini — Apuração in loco e cruzamento de fontes. A expressão zonas vermelhas voltou ao centro do debate público com promessas de maior segurança, mas o que se observa na prática é uma operação de imagem que pouco ou nada altera a realidade nas ruas.

No vocabulário técnico de ordem pública, uma zona vermelha representa uma medida excepcional e temporária: proteção física de locais que hospedam cúpulas internacionais ou eventos de alto risco, com delimitação de áreas, varcos e filtragens pelo tempo estritamente necessário. É uma ferramenta operacional definida por lei e aplicada em caráter contingente.

O que o recente decreto de segurança e as subsequentes diretivas ministeriais passaram a chamar de zonas vermelhas é, na prática, outra coisa. Hoje o termo tem sido usado para marcar porções da cidade submetidas a uma chamada vigilância reforçada, que prevê ordens de afastamento, Daspo urbano e outras medidas administrativas com o argumento de restaurar ordem e legalidade no território.

O ponto crucial, confirmado pelo cruzamento de documentos e depoimentos de forças de segurança, é a falta de clareza sobre como esse suposto reforço será efetivamente entregue. Na maior parte dos casos, o chamado reforço seria obtido realocando recursos já comprometidos em outras frentes operacionais, sem aporte novo e sem cronograma de longo prazo.

Chamar com o mesmo nome dois instrumentos que não guardam quase nenhuma semelhança alimenta uma ilusão comunicacional: a de que foi ampliada a capacidade estatal quando, na verdade, foram ampliadas as expectativas. Quem conhece a rotina policial sabe que medidas de caráter essencialmente simbólico incidem pouco sobre os fenômenos que dizem combater. A retórica de segurança substitui, assim, políticas públicas estruturais.

O combate ao degrado e à ilegalidade não se faz desenhando perímetros simbólicos. Exige governar o que acontece dentro e ao redor desses territórios, sobretudo nas periferias. Elas não podem continuar reduzidas a dormitórios sujeitos a operações cíclicas de polícia. Precisam ser lugares vividos: escolas abertas, equipamentos esportivos acessíveis, centros culturais e espaços de convivência. Uma praça com vida é o primeiro e mais eficaz presídio de segurança: onde há vida, recuam a delinquência e o medo.

A administração territorial não se resolve com marca-texto sobre mapas. Exige presença do Estado que se traduza em regras efetivas e aplicadas, presença policial consistente e, paralelamente, um sistema judicial capaz de processar com rapidez quem pratica delitos. Segurança e certeza do direito são partes do mesmo sistema. Sem estruturas judiciais eficientes e orgânicos adequados das forças de segurança, as medidas anunciadas permanecem performativas.

Na opinião pública, a linguagem oficial alimenta a percepção de uma mudança substancial. Na prática, o que se verifica é uma continuidade: políticas feitas de slogans, decretos e anúncios com baixa capacidade de impactar a vida urbana. O desafio real é técnico e político. Requer investimentos permanentes, planejamento integrado e monitoramento independente dos resultados — não apenas perímetros de comunicação.

Apuração precisa e fatos brutos indicam que a ilusão das zonas vermelhas só será desmontada quando a retórica for substituída por ações mensuráveis. Até lá, a promessa de segurança continuará mais presente nas manchetes do que nas ruas.