Cannavaro: “A seleção na Bósnia teve medo; na Itália há treinadores demais. Sem a cabeçada, o meu Pallone d’Oro seria do Zidane”

Cannavaro critica a seleção na Bósnia, aponta excesso de treinadores na Itália e lembra que sem a cabeçada Mourinho o Pallone d'Oro teria sido de Zidane.

Cannavaro: “A seleção na Bósnia teve medo; na Itália há treinadores demais. Sem a cabeçada, o meu Pallone d’Oro seria do Zidane”

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Cannavaro: “A seleção na Bósnia teve medo; na Itália há treinadores demais. Sem a cabeçada, o meu Pallone d’Oro seria do Zidane”

Por Giulliano Martini — Fabio Cannavaro, atual treinador da seleção do Uzbequistão, revisitou sua carreira em entrevista a Luca Toni para a plataforma Prime Video. Em tom direto e factual, o capitão do título mundial de 2006 traçou um diagnóstico crítico sobre o momento do futebol italiano, resgatou episódios da trajetória pessoal e profissional e revelou bastidores que ilustram conflitos e escolhas que marcaram gerações.

Ao comentar a eliminação da Itália na Bósnia, Cannavaro foi incisivo: “A seleção na Bósnia teve medo”. Para ele, a resposta do futebol italiano passa por uma crise de estrutura e por um excesso de soluções internas: “Aqui há troppi allenatori — muitos treinadores sem a necessária cabeça, sem coerência de projeto”. A crítica central é que excesso de rotatividade e de teorias desconectadas da prática prejudica a formação de um modelo consistente.

Em tom de anedota precisa sobre sua própria carreira, Cannavaro recordou a final de 2006 e o episódio da cabeçada que marcou a disputa com Zidane. “Sem a minha cabeçada, o meu Pallone d’Oro teria sido, provavelmente, do Zidane”, afirmou, sem cerimônia. A constatação é lançada como um fato a ser registrado, não como autoelogio.

Sobre técnica e filosofia de jogo, o ex-zagueiro resgatou passagens da carreira de clubes. Do Napoli onde cresceu – “vivia a 300 metros do San Paolo e jogávamos com o que havia, às vezes até com latas como postes” – ao Parma de meados dos anos 90, onde conviveu com uma geração talentosa: “A qualidade era enorme, jogávamos juntos e tínhamos uma vida coletiva que ajudava. O único arrependimento foi não ter conquistado um scudetto”.

Sobre treinadores que influenciaram sua visão tática, Cannavaro citou Malesani como um precursor de ideias depois associadas a Guardiola: “Nos primeiros meses precisávamos assimilar sua filosofia; fazia os laterais e os defensores jogarem por dentro do campo. Não era perfeito na gestão do grupo, mas como ideias estava entre os melhores que conheci”. Sobre Ancelotti, lembrou que começou como lateral e acabou recuado ao centro ao lado de Thuram — a dupla levou o Parma a terminar a temporada em segundo lugar em 1997.

Na trajetória do clube ao palco internacional, surgiram também memórias sobre Buffon e episódios do vestiário: “Gigi era instintivo, devastador na Primavera, o Maradona dos goleiros. Foi com ele que conheci Thuram; lembro de uma viagem a Dortmund em que Lilian perdeu uma lente de contato e teve dificuldade à noite”.

Ao abordar escolhas profissionais recentes, Cannavaro explicou por que aceitou o desafio no Uzbequistão: foi uma decisão imediata e sem motivação financeira predominante. “Fui para a Ásia de pronto, sem pensar nos salários. Lamento que nunca tenha chegado uma chamada da seleção italiana para mim como treinador”, disse, com franqueza. Ele também relatou bastidores de relacionamentos entre ícones — “Buffon e Capello nem sempre tiveram boa relação” — e contou que, na época da Alemanha, Lippi cogitou demitir Inzaghi, episódio que foi discutido por ele com Peruzzi.

Ao encerrar, Cannavaro destacou iniciativas pessoais fora dos gramados: a compra do centro giovanile Paradiso, afetado por dificuldades do primeiro Napoli, com o objetivo de reativar a formação local. A fala evidencia um compromisso prático com a base, coerente com sua leitura de que o futuro do futebol italiano passa pela formação e pela redução do amadorismo na gestão técnica.

Relato seco, cruzamento de fontes e fatos diretos: a entrevista registra tanto a memória dos grandes momentos quanto a crítica precisa a problemas estruturais, oferecendo um raio‑x do futebol italiano visto por quem carregou a braçadeira de campeão do mundo.