Aos 101 anos, Carla Villa conta rotina em Brera: 'Café com biscoitos, janto frango ou peixe e o risoto já não é o mesmo'
Aos 101 anos, Carla Villa descreve rotina em Brera: café com biscoitos, janta leve, críticas ao risoto à milanesa e memórias da Drogheria Villa.
RESUMO ✦
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Aos 101 anos, Carla Villa conta rotina em Brera: 'Café com biscoitos, janto frango ou peixe e o risoto já não é o mesmo'
Por Giulliano Martini — Apuração in loco e cruzamento de fontes. Aos 101 anos, Carla Villa mantém a voz firme e a memória viva do bairro de Brera. Sentada à mesa, com duas bandejas de biscoitos ao alcance, ela descreve hábitos, lugares e pessoas que atravessam quase um século de história milanesa.
Em entrevista ao Corriere della Sera, Carla Villa traçou um retrato direto de sua rotina: "Mi sveglio tra le 7.30 e le 8 e faccio colazione con caffelatte e biscotti", diz. Ela contou que costuma pular o almoço e que, à noite, prefere "pollo con verdure o pesce". "Ormai non ci sono più le materie prime di una volta e anche il risoto à milanesa — ou risotto alla milanese — non lo sa fare più nessuno", afirmou, em tom seco e preciso.
Os vínculos de Carla Villa com a rua Via San Marco são quase totais: ela vive ali há 99 anos. O local abriga as lembranças familiares e profissionais que marcam a memória do bairro. No andar de baixo, hoje, funciona o local chamado El Tombon, que ela batizou. Antes disso, o espaço foi a histórica Drogheria Villa, do seu pai, Luigi, lembrada como uma das mercearias mais bem abastecidas de Milão e ponto frequente de jornalistas e figuras ligadas ao Corriere della Sera.
A independência foi marca pessoal: em 1967, um ano antes do maio de 1968, ela tomou a decisão de criar o filho — Thomas — sozinha, sem recorrer a conformismos sociais. "A liberdade, para mim, nunca foi um slogan", afirmou, refletindo com a objetividade que acompanha testemunhas de longa data.
Hoje, Carla Villa conta com uma rede de apoio. "Tem Lolita, que também cuida do jantar. De dia há sempre alguém: meu filho, as senhoras que manda o Comune e a minha Ruth", relatou. A mobilidade é reduzida — "não caminho mais bem" — mas, se a temperatura permite, ela ainda aprecia caminhar pelo bairro.
Sobre a morte, a resposta foi direta e fria como um dado: "Se não houvesse o Thomas não me incomodaria; no fim, é preciso morrer. Mas não fico dizendo: que beleza, logo morro". A fala registra uma aceitação serena sem romantizações.
Os detalhes da história de Carla Villa formam um painel de memória urbana: da Drogheria Villa frequentada por redatores do grande jornal até o nome que ela deu ao estabelecimento atual, passando pela convivência com vizinhos ilustres, como a bailarina Carla Fracci. É o raio-x do cotidiano de Brera, contado com precisão e sem ruído.
Registro final: a senhora mantém hábitos simples — caffelatte, biscoitos, janta leve e um gelato ocasional. "Ogni tanto mangio il gelato al caffè che porta Thomas" — frase que resume bem a combinação de autonomia e cuidado familiar que atravessa sua vida centenária.