Pedidos a ChatGPT entram no processo: juízes consideram provas de stalking no caso Aurora Tila

Juízes aceitam mensagens a ChatGPT como prova de stalking no caso Aurora Tila; acusado condenado a 17 anos por queda fatal em Piacenza.

Pedidos a ChatGPT entram no processo: juízes consideram provas de stalking no caso Aurora Tila

RESUMO ✦

Sem tempo? A Lili IA resume para você

Gerando resumo com IA...

Pedidos a ChatGPT entram no processo: juízes consideram provas de stalking no caso Aurora Tila

Por Giulliano Martini

As solicitações que a vítima fazia ao ChatGPT foram valorizadas pelos magistrados como elementos probatórios do stalking que sofria. É essa avaliação que permeia a sentença contra o jovem acusado, que na época dos fatos tinha 15 anos e, posteriormente, foi julgado aos 16. Ele foi condenado a 17 anos pela morte de Aurora Tila, a adolescente de 13 anos que caiu de uma sacada em Piacenza em 25 de outubro de 2024.

O Tribunal para menores de Bolonha, presidido pelo juiz Gaetano Scaduti, considerou credíveis as mensagens que Aurora dirigia à inteligência artificial, nas quais pedia conselhos sobre o relacionamento, sobre a decisão de terminá-lo e sobre como distinguir um amor verdadeiro de um vínculo tóxico. Segundo a sentença, a menor consultava o ChatGPT “para compreender como comportar-se naquela situação delicada e sufocante” — manifestação que os julgadores avaliaram como prova da sua percepção do risco a que estava exposta.

Para os magistrados, não apenas está configurado o stalking, como foi exatamente esse contexto de medo que levou Aurora a aceitar o último encontro com o ex-namorado. A corte descreve um quadro de “paroxismo de possessividade e ciúme” por parte do réu — cujo discurso, segundo a sentença, repetia que se ele não a tivesse, ninguém mais a teria.

Da decisão também emergem elementos que demonstram a intenção criminosa: embora a premeditação não tenha sido formalmente imputada, testemunhos indicaram que, no dia anterior ao crime, o acusado declarou a um colega de cela que pretendia matar a menina. Esse colega foi ouvido em juízo. Ainda segundo a sentença, o jovem levou um chave de fenda consigo na ocasião, ferramenta que foi apreendida pela investigação.

Os juízes destacaram o tom “sinistro” de mensagens enviadas pelo réu para persuadir a vítima a encontrá‑lo — entre elas, as frases «Domani ultima volta, poi mai più» e «Ti prometto che dopo l'uscita di venerdì non ti cercherò mai più» — que, na avaliação da corte, contribuíram para o clima de intimidação.

A narrativa oficial é que Aurora tentou, num gesto de desespero, desarmar o ódio do ex; enquanto ela esperava que o encontro aplacasse a tensão, ele já teria decidido matá‑la, aproveitando a ocasião “para por em prática seu plano maléfico”.

O réu negou o homicídio ao longo do processo: suas versões oscilaram entre uma queda acidental e, posteriormente, um suposto ato voluntário da própria vítima. Para os magistrados, contudo, as provas contra essa versão são “esmagadoras” e “graníticas”, apoiadas em depoimentos oculares que acompanharam o episódio.

Em novembro, com o rito abreviado, o Tribunal para menores de Bolonha impôs a pena de 17 anos por homicídio agravado múltiplo. O Ministério Público pedira 20 anos e 8 meses. A dinâmica apontada pela acusação é que o jovem teria empurrado Aurora da sacada do sétimo andar e golpeado suas mãos quando ela tentou se segurar na grade, provocando a queda fatal.

Apuração in loco, cruzamento de fontes e exame das comunicações digitais foram determinantes para que a corte incorporasse as interações com o ChatGPT ao conjunto probatório, reconhecendo nelas um indicador da credibilidade do temor demonstrado pela vítima.