Ex-embaixador em Uzbekistão é preso por esquema de vistos falsos que trouxe ao menos 100 russos à Itália
Ex-embaixador em Uzbequistão é preso por emitir vistos falsos que permitiram a entrada irregular de ao menos 100 russos na Itália.
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Ex-embaixador em Uzbekistão é preso por esquema de vistos falsos que trouxe ao menos 100 russos à Itália
Por Giulliano Martini — Apuração in loco e cruzamento de fontes. A investigação da Procuradoria de Roma apontou que pelo menos cem cidadãos russos ingressaram na Itália de forma irregular entre dezembro de 2024 e julho de 2025 por meio de vistos turísticos adulterados. Os responsáveis pelo esquema, segundo os autos, são o ex-embaixador italiano no Uzbequistão Piergabriele Papadia De Bottini e sua colaboradora russa, Tatiana Tarakanova, ex-funcionária da Enit. Ambos foram detidos pelo Nucleo di polizia economico-finanziaria da Guardia di Finanza de Roma.
Os magistrados da Procura di Roma, com coordenação dos procuradores adicionados Giovanni Conzo e Giuseppe De Falco, certificaram 95 entradas ilegítimas a partir da análise de um painel de 170 vistos, extraídos de um total aproximado de 400 emitidos no período. Os promotores não imputaram, por ora, o crime de espionagem, mas os investigadores não descartam que alguns dos beneficiários possam ter exercido atividades informativas em favor de Moscou. As apurações continuam em evolução.
O mecanismo descrito nos autos indica que Papadia recebia, via Telegram, listas de nomes encaminhadas por três agências de viagem com sede em Moscou. Uma dessas agências, identificada como Visa Concord Travel, aparece “recorrente em numerosas práticas” e estaria ligada a pelo menos três empresas registradas em Moscou, com domicílio fiscal coincidente a um mesmo número na Via Leopardi, em Milão.
As investigações partiram de uma denúncia do Ispettorato Generale do Ministério dos Negócios Estrangeiros e de uma inspeção realizada em julho de 2025 na embaixada italiana em Tashkent. Os investigadores lembram que, em setembro de 2022, a União Europeia já havia orientado os Estados-membros a não aceitar pedidos de visto apresentados por cidadãos russos em países terceiros quando não comprovassem residência habitual nesses países. Apesar disso, os números oriundos do Uzbequistão chamaram atenção pelo volume anômalo.
Nos documentos apreendidos e nas peças processuais, os recibos de suporte às solicitações de visto foram descritos como falsificados: cópias de documentos autênticos teriam sido manipuladas por meio de programas de edição gráfica para inserir dados de requerentes. Em muitos casos, para contornar as recomendações europeias, foram emitidos vistos plurianuais e de múltiplas entradas a solicitantes cujo histórico constava apenas de vistos curtos, de poucos dias.
Segundo os autos, as solicitações eram encaminhadas a Papadia por dois canais “fora de lista”: diretamente no Telegram ou “por nota verbal”. As condutas investigadas culminaram nas prisões preventivas de Papadia e Tarakanova, formalmente acusados de corrupção e favorecimento da imigração clandestina.
Trata-se de um caso que envolve fragilidades administrativas e sinais de anomalia sistêmica. A apuração prossegue para mapear a extensão das emissões de vistos, identificar demais envolvidos e esclarecer se houve outros canais de facilitação. A realidade traduzida pelos autos exige respostas rápidas das instâncias consulares e do Ministério dos Negócios Estrangeiros para restaurar controles e garantir a segurança do processo de concessão de vistos.