Investigação sobre transplante de coração: interrogatórios apontam início do procedimento antes da abertura da embalagem doador

Interrogatórios revelam que cardiectomia começou antes da abertura do frigo box com coração doador; investigação aponta possível homicídio culposo e falsificação.

Investigação sobre transplante de coração: interrogatórios apontam início do procedimento antes da abertura da embalagem doador

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Investigação sobre transplante de coração: interrogatórios apontam início do procedimento antes da abertura da embalagem doador

Em apuração direta e com cruzamento de fontes, foram confirmadas novas peças-chave no inquérito que investiga o transplante fracassado que levou à morte do pequeno Domenico. A cardiocirurgiã Emma Bergonzoni declarou que os procedimentos de retirada do coração enfermo da criança se iniciaram quando o recipiente contendo o órgão doador, proveniente de Bolzano, ainda estava fechado.

O transplante foi realizado em 23 de dezembro de 2025 no hospital Monaldi, pela equipe comandada por Bergonzoni e pelo cardiocirurgião Guido Oppido. O paciente, Domenico Caliendo, veio a falecer em 21 de fevereiro de 2026. Os dois médicos já haviam sido ouvidos em 31 de março e foram novamente interrogados pelo juiz de garantia em 21 de maio: cerca de duas horas para a cardiocirurgiã e três horas para Oppido.

Segundo fontes judiciais consultadas, as versões oferecidas pelos dois profissionais divergem em pontos relevantes. Há, ainda, suspeita de que os médicos tenham tentado alinhar narrativa após o fato — possibilidade sustentada por trocas de mensagens via chat anexadas ao processo.

Os indícios reunidos pela Procuradoria de Nápoles e pelo NAS apontam, além do suposto homicídio culposo em concurso, para a eventual falsificação da documentação clínica. O núcleo da acusação é objetivo: o início da cardiectomia do coração do receptor teria ocorrido antes da verificação do estado do órgão doador, que chegou em embalagem lacrada. Entre cinco e seis minutos — intervalo curto, mas considerado decisivo pelos investigadores — teria sido perdido para confirmar a condição do coração a ser transplantado, que se tornou inutilizável por conta de temperaturas excessivamente baixas geradas pelo gelo seco.

Foram anexados aos autos vídeos gravados por um operador socio-sanitário na sala de cirurgia no dia do transplante. As imagens, segundo o Ministério Público, mostram o 'frigo box' com o coração doado ainda fechado quando o coração do pequeno Domenico já estava sobre a mesa operatória. Também constam mensagens de chat nas quais a doutora Bergonzoni manifesta preocupação com o ocorrido; ela é assistida pelo professor Vincenzo Maiello. O doutor Oppido, defendido pelos advogados Sorge e Manes, reiterou que teria recebido autorização para a cardiectomia por parte da colega que fez o explante em Bolzano, declaração que não encontra confirmação entre outros presentes na sala de cirurgia.

No interrogatório preventivo, o substituto do procurador Giuseppe Tittaferrante — que, junto ao procurador adjunto Antonio Ricci, conduz a investigação sobre o suposto homicídio culposo e a alteração da cartela clínica — questionou diretamente sobre a presença dos médicos Farina e Pagano, responsáveis pelo explante em Bolzano. A resposta da cardiocirurgiã, conforme transcrição, foi lacônica: “Mi pare che non fossero già in sala operatoria” — equivalente à informação de que esses profissionais não estariam já na sala quando teria se iniciado a cardiectomia no receptor.

Também foi debatido no interrogatório o número de contrações verificadas pelo coração doado, tema técnico que integra o quadro probatório. A investigação segue com requisições de novas imagens e depoimentos, enquanto a análise pericial tenta reconstruir cronometrias e impactos térmicos sobre o órgão transplantado.

Do ponto de vista processual, o caso passa agora pela análise das comunicações internas, das imagens e das anotações clínicas. Do ponto de vista jornalístico, mantemos apuração in loco e o cruzamento de fontes como prioridade para evitar ruído informativo: fatos brutos, documentação oficial e transcrições dos interrogatórios balizarão próximas etapas da cobertura.