Kledi Kadiu e o desembarque histórico da nave Vlora em Bari: 35 anos depois
Kledi Kadiu relembra a chegada da nave Vlora a Bari em 1991 e a sua trajetória: silêncio, repatriação e o retorno que mudou sua vida.
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Kledi Kadiu e o desembarque histórico da nave Vlora em Bari: 35 anos depois
Em visita ao Comune di Bari, o bailarino e coreógrafo Kledi Kadiu voltou a relatar, com precisão e memória cristalinamente documentada, a sua chegada à cidade a bordo da nave Vlora, em 8 de agosto de 1991. A declaração foi dada na véspera do 35º aniversário de um dos episódios mais simbólicos do êxodo albanês para a Itália.
Na ocasião tinha pouco mais de 17 anos. A embarcação, partida de Durrës, chegou a Bari com cerca de 20 mil pessoas a bordo. "Os sonhos não se podem apagar e penso que todos têm direito a uma vida melhor", disse Kledi Kadiu, descrevendo o impacto imediato do desembarque: um primeiro silêncio intenso seguido de uma sensação de liberdade e da possibilidade de provar aquilo que muitos haviam sonhado por anos.
O relato de Kledi Kadiu é direto e sem artifícios: após o desembarque, os migrantes foram concentrados entre o porto e o Stadio della Vittoria. Lá, segundo o artista, formou-se um cordão de forças militares e policiais que impedia o contato com os moradores locais. "Os cidadãos estavam ao redor do estádio, mas havia uma grande cinta do exército e dos carabinieri e, para nós, era impossível encontrá-los", afirmou.
Em seguida, ele descreve a tentativa de afastar-se da área onde os migrantes foram reunidos: conseguiu ter um contato mínimo com algumas pessoas, mas foi recapturado e, dias depois, repatriado. Esse primeiro retorno à Albânia não encerrou, porém, o seu projeto de viver e trabalhar na Itália. "Com a minha determinação eu quis voltar e nunca deixei de perseguir o sonho que sempre tive", afirmou, apontando a persistência como elemento central de sua trajetória.
O percurso profissional de Kledi Kadiu na Itália, que o levou a tornar-se um nome conhecido na dança e na televisão, nasce também da admiração por ícones que chegavam pela telvisão italiana durante o regime comunista na Albânia. "Víamos a televisão às escondidas. Eu sonhava em ser como Raffaele Paganini, Raffaella Carrà, Heather Parisi", recordou.
Ao relacionar aquele episódio às migrações contemporâneas, Kledi Kadiu destacou tanto a continuidade do fenômeno migratório quanto a singularidade do caso da Vlora. "A história é antiga mas também atual, porque as chegadas continuam. Aquilo da Vlora foi um desembarque epocal: ninguém podia imaginar vinte mil albaneses numa única embarcação", disse.
O artista também traçou um diagnóstico social: comparado a três décadas atrás, segundo ele, mudou a relação entre as pessoas — "há mais individualismo, cada um pensa mais em si, há menos união e as pessoas estão menos disponíveis para o próximo" — apontamento que converte o episódio num termômetro da transformação social.
Sobre o jovem que partiu sem garantias, Kadiu fala de "inconsciência" misturada à determinação. "Quando és tão jovem partes sem te dar realmente conta do que te espera. No nosso caso a experiência não terminou positivamente, porque fomos repatriados. Mas eu quis voltar e não desisti daquele sonho".
O testemunho de Kledi Kadiu, trazido ao debate público em Bari na véspera do aniversário, soma-se ao arquivo factual do êxodo albanês dos anos 1990 e reforça a necessidade de manter o registro preciso desses eventos para a compreensão das dinâmicas migratórias que atravessam a Europa.