Como funciona o linguajar dos golpes sentimentais online: perfis falsos, esquemas e o corpus LoveFraud03

Pesquisa revela como golpes sentimentais online usam linguagem e perfis falsos para manipular vítimas; corpus LoveFraud03 expõe padrões e táticas.

Como funciona o linguajar dos golpes sentimentais online: perfis falsos, esquemas e o corpus LoveFraud03

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Como funciona o linguajar dos golpes sentimentais online: perfis falsos, esquemas e o corpus LoveFraud03

Por Giulliano Martini — Uma pesquisa da Universidad de Granada revela, com evidência empírica e análise linguística, os mecanismos comunicativos que sustentam os golpes sentimentais online. A investigação, coordenada pela professora emérita Pamela B. Faber, documenta como redes especializadas em romance scam constroem narrativas e vocabulários precisos para conquistar a confiança das vítimas e obter transferências de dinheiro.

A apuração envolveu interação direta, ao longo de mais de quatro anos, com mais de 150 perfis criminosos operando em redes sociais e plataformas digitais. Para provocar respostas reais, a pesquisadora atuou sob um disfarce estratégico: apresentou-se como uma viúva rica dona de uma villa, com carro de luxo e motorista — um tipo de perfil frequentemente visado por essas organizações.

Do material coletado nasceu o corpus denominado LoveFraud03, com mais de dois milhões de palavras. A partir desse acervo, a análise baseada em linguística cognitiva e análise do discurso identificou padrões repetitivos: construção de identidade profissional respeitável, relatos de missões em zonas de conflito, histórias de perda conjugal, apelos a compromisso emocional e pedidos posteriores de ajuda financeira justificados por emergências burocráticas, médicas ou logísticas.

Os interlocutores fictícios incluíam 51 supostos generais do exército dos EUA, 29 alegados médicos das Nações Unidas, 20 técnicos que diziam trabalhar em plataformas petrolíferas offshore, além de capitães de navio, empresários, empreiteiros e até celebridades inexistentes. Essas escolhas não são aleatórias: exploram autoridade, isolamento geográfico e vulnerabilidade emocional para facilitar a criação de vínculos rápidos.

No estudo The Language of Love Fraud, Faber demonstra que criminosos ativam deliberadamente esquemas cognitivos relacionados ao amor, à proteção, ao compromisso e à confiança por meio de escolhas lexicais precisas. Esse repertório faz com que destinatárias — sobretudo mulheres ocidentais — minimizem incongruências sintáticas, lacunas narrativas e solicitações financeiras pouco críveis.

A investigação também trouxe luz sobre a organização interna dessas redes. Identificaram-se termos de identificação interna, como o vocábulo "alaye", usado por golpistas para se reconhecerem. Foram ainda mapeados centros informais de treinamento, denominados "Hustler Kingdoms", localizados em partes da África Ocidental, onde jovens aprendem técnicas de persuasão verbal e manipulação emocional.

Um dado raro e significativo: parte dos próprios criminosos colaborou com a pesquisa. Onze admitiram, em interação direta, a natureza fraudulenta de suas ações e três aceitaram cooperar, oferecendo detalhes sobre os métodos e a logística das operações. Esses depoimentos ajudaram a reconstruir rotinas, hierarquias e táticas de treinamento dentro das redes.

Do ponto de vista prático, as lições do trabalho são objetivas. Identificar sinais linguísticos — elogios rápidos, declarações de compromisso precoce, relatos de isolamento físico e pedidos justificando transferência imediata de fundos — pode reduzir a margem de erro das potenciais vítimas. O cruzamento de fontes e a análise sistemática de discurso, como realizado por Pamela B. Faber, transformam episódios isolados em padrões detectáveis.

Conclusão: os golpes sentimentais online não dependem apenas de engenharia social genérica; assentam-se em uma gramática de manipulação construída e replicada. Conhecer essa gramática é condição mínima para prevenção, investigação e responsabilização das redes responsáveis por essas fraudes.