Regeni: procurador descreve semana de torturas e pede ergastolo aos agentes egípcios

Procurador descreve semana de torturas sofridas por Giulio Regeni e pede ergastolo a agentes egípcios; autópsia italiana revelou 20 fraturas.

Regeni: procurador descreve semana de torturas e pede ergastolo aos agentes egípcios

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Regeni: procurador descreve semana de torturas e pede ergastolo aos agentes egípcios

Giulio Regeni foi vítima de uma sequência sistemática de violência, de privação de garantias e de tortura que durou cerca de uma semana, e morreu após “atroces sofrimentos”, disse o procurador-adjunto de Roma, Sergio Colaiocco, na abertura da requisitória do processo contra os agentes dos serviços egípcios. A sessão ocorreu na manhã desta quarta-feira no bunker da prisão de Rebibbia, em Roma.

O procurador iniciou a exposição pronunciando em árabe uma frase que, conforme traduziu em seguida, equivale a “demos o golpe de misericórdia”, para sublinhar a sistematicidade do que classifica como método de violência. Segundo Colaiocco, o julgamento não trata apenas da supressão de uma vida, mas do “exercício metódico, frio e organizado da violência sobre um homem inerme”.

“O que se julga aqui não é a mera supressão de uma existência humana, mas o sequestro de uma pessoa privada de todas as garantias”, afirmou o magistrado. “Trata-se de tortura prolongada como instrumento de domínio. E esse homem tinha nome, rosto, história: Giulio Regeni, cidadão italiano, jovem pesquisador, um homem livre.”

Pela acusação, o pesquisador friulano foi detido, interrogado e submetido a sessões repetidas de maus-tratos entre 25 de janeiro e 3 de fevereiro de 2016. Colaiocco enfatizou que Giulio morreu depois de padecer torturas e que suportou tudo com lucidez, “sem sedação, sem narcóticos e sem qualquer alívio”.

Na audiência foram exibidas imagens da autópsia e das radiografias realizadas no corpo de Regeni, atos periciais descritos pelo procurador como um quadro “devastador”. O contraste entre os laudos egípcios e os italianos foi destacado como elemento central da acusação: enquanto os médicos-legistas do Egito registraram apenas uma fratura no braço direito, os exames italianos identificaram 20 fraturas no total — cinco envolvendo dentes e quinze em outras estruturas ósseas.

Para a acusação, esse padrão de lesões demonstra que os ferimentos foram infligidos em diferentes momentos, coerentes com interrogatórios repetidos, espancamentos e torturas durante vários dias. “Cada segmento anatômico conta uma modalidade distinta de sevícia; cada distrito corporal testemunha uma fase do acirramento”, disse Colaiocco, classificando os atos não como simples agressões, mas como “uma metodologia de aniquilamento”.

O procurador também imputou responsabilidade às autoridades egípcias por omissão e proteção dos responsáveis: segundo a peça acusatória, o regime egípcio não abriu investigações reais, nem exigiu que seus oficiais respondessem pelas “nefandades” cometidas, optando por encobrir os agressores.

Ao finalizar a requisitória, a acusação pediu a pena de ergastolo para um dos réus e três condenações de 17 anos e meio para outros agentes, segundo pedido formal apresentado hoje em juízo. A sessão reafirma o caráter internacional do caso: trata-se de uma acusação que combina provas médico-legais, depoimentos e elementos que, segundo o Ministério Público, apontam para uma prática institucionalizada de violência.

O processo em Roma seguirá com as próximas fases de instrução e as defesas terão oportunidade de contestar as perícias e as interpretações da promotoria. A apuração in loco, o cruzamento de fontes e a análise técnica das lesões permanecem no centro do esforço probatório, enquanto o país acompanha um caso que continua a marcar as relações entre Itália e Egito.