‘Sistema Sorrento’: prefeito de Sant’Agnello recusou propina — relato e intercptação revelam esquema
Apuração mostra que o prefeito de Sant’Agnello, Piergiorgio Sagristani, recusou propina ligada ao 'Sistema Sorrento' em investigação sobre obras públicas.
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‘Sistema Sorrento’: prefeito de Sant’Agnello recusou propina — relato e intercptação revelam esquema
Por Giulliano Martini — Apuração in loco e cruzamento de fontes mostram que, nos documentos da investigação conhecida como “Sistema Sorrento”, surge um episódio que contrasta com o padrão de negociação entre políticos e empreiteiros denunciado na Costa di Sorrento: o ex-prefeito de Sant’Agnello, Piergiorgio Sagristani, teria recusado uma mazzetta oferecida por um empresário ligado ao circuito de corrupção.
Os autos da Tangentopoli local — parte do inquérito que abalou Sorrento e municípios vizinhos — incluem um verbale datado de 4 de setembro de 2025, desclassificado de omissis e consultado por esta redação. No documento, o ex-prefeito de Sorrento e delator, Massimo Coppola, presta depoimento no presídio de Poggioreale ao magistrado de Torre Annunziata, o promotor Giuliano Schioppi, detalhando a rede de favorecimentos e pagamentos.
Em um capítulo específico sobre o município de Sant’Agnello, Coppola refere-se a dois personagens centrais do mecanismo: Raffaele Guida — apelidado “Lello il Sensitivo” — e o empresário Mario Parlato, já preso no último verão e posteriormente colaborador das investigações, que recebeu aviso de conclusão de inquérito após prestar esclarecimentos.
O alvo em questão era uma obra pública programada para Sant’Agnello: a conversão de um imóvel (a antiga Escola Diaz) na nova sede da Caserma dei Carabinieri destinada a atender a área de Sorrento. Segundo Coppola, Guida e Parlato informaram que essa obra deveria ser destinada ao circuito deles. Ao narrar a conversa mantida com Sagristani, Coppola afirma textualmente que o prefeito recusou contato com Parlato porque, anos antes, este teria oferecido-lhe uma soma em forma de tangente para garantir um contrato.
O detalhe da recusa emerge a partir da transcrição de uma interceptação ambiental realizada em 27 de maio de 2024 — incorporada no relatório final da Guarda di Finanza de Massa Lubrense — onde Guida e Parlato discutem sem rodeios sobre licitações e propinas envolvendo Sorrento. No diálogo, mencionam explicitamente Sant’Agnello e a necessidade de “se colocar à disposição” de Sagristani para viabilizar a obra. A resposta de Coppola no verbale é clara: Sagristani “não queria ter a ver com ele” em razão daquela oferta anterior.
Do ponto de vista da investigação, o episódio tem dupla relevância: primeiro, confirma que havia uma tentativa de estender o mesmo padrão de acordos sobre obras públicas para além de Sorrento; segundo, demonstra uma exceção factual — a recusa de Sagristani — que permite identificar rupturas internas no conjunto de atores que operavam o esquema.
Em linguagem direta e com base em fatos brutos, a realidade traduzida pelos autos é esta: o Sistema Sorrento atuava com clareza em Sorrento, adaptava-se a municípios vizinhos quando vantajoso, mas encontrava obstáculos quando agentes públicos optavam por não se submeter à dinâmica de favorecimentos. A interceptação de 27.05.2024 e o verbale de setembro de 2025 são peças-chave para reconstruir a cronologia de contatos, ofertas e recusas que compõem o raio-x do caso.
Seguiremos acompanhando o desenrolar das colaborações premiadas, as fases de investigação e as eventuais implicações administrativas e criminais para os envolvidos, com levantamento de documentos oficiais e entrevistas às fontes judiciais que permitam eliminar qualquer ruído interpretativo.