O “Aeroplano” dos trasvoladores renasce como farol cultural em Pescara

Antiga colônia 'Aeroplano' em Pescara renasce sob gestão da Universidade Gabriele d'Annunzio, unindo memória arquitetônica e polo cultural.

O “Aeroplano” dos trasvoladores renasce como farol cultural em Pescara

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O “Aeroplano” dos trasvoladores renasce como farol cultural em Pescara

Quarenta anos de expectativa e um destino que parecia selado: assim se desenhava a história de uma construção que nasceu no passado e hoje se projeta para o futuro. A antiga colônia marítima dos anos 1930, inicialmente dedicada a Rosa Maltoni Mussolini e depois rebatizada como Stella Maris, viveu décadas de abandono e de uma aversão ideológica que tentou apagar seu papel urbano. Foi, no entanto, a Universidade Gabriele d'Annunzio de Chieti-Pescara que ofereceu um novo rumo, transformando o edifício num polo cultural de alto nível — um verdadeiro porto seguro para a memória arquitetônica do Ventennio.

O que impressiona é como a arquitetura se comporta como um espelho do tempo: as linhas do edifício remetem, de forma explícita, aos hidroaviões Savoia Marchetti S55, ícones da aviação italiana e protagonistas das proezas de pilotos como Carlo De Pinedo, Carlo Del Prete e Vitale Zacchetti. As célebres formações de voo de 1933, de Orbetello a Chicago, e a aura em torno de figuras como Italo Balbo converteram o projeto arquitetônico em pedra que preserva o gesto heroico da aviação daquele período — há até um exemplar único desse hidroavião conservado atualmente em um museu de São Paulo.

O projeto arquitetônico arrancou em 1937 pelos traços do arquiteto Francesco Leoni e do engenheiro Carlo Liguori. Mas sua génese era de 1935, quando a federação do Partido Nacional Fascista de Rieti solicitou a criação de uma colônia marítima com capacidade para 200 crianças. O município de Montesilvano cedeu 12.000 m² de frente ao mar, os trabalhos sofreram atrasos, mas, em 28 de novembro de 1938, a inauguração oficial aconteceu com solenidade e bênção — e ainda hoje uma inscrição em uma coluna guarda a memória daquele momento.

Inserido no contexto de uma cidade que foi palco de primórdios da aeronáutica (com eventos desde 1910), onde o engenheiro Corradino D'Ascanio firmou marcos — pensemos no primeiro helicóptero dos anos 1920 — e onde a Coppa Acerbo despertou paixões automobilísticas (Enzo Ferrari entre os primeiros vencedores), o edifício traduz uma história complexa. É também a cidade de Gabriele d'Annunzio, herói de façanhas aéreas e do imaginário italiano, cuja presença simbólica fortalece a ligação entre o local e a cultura do voo.

O restauro e a requalificação promovidos pela universidade não apagam a matéria histórica; ao contrário, realizam um reframe: transformam o que era um emblema de uma narrativa política específica em um mare magnum cultural, capaz de acolher memórias múltiplas. É o roteiro oculto da sociedade em ação — quando a arquitetura, antes convertido em símbolo, passa a ser plataforma para diálogo, pesquisa e fruição pública.

Como analista cultural, vejo nesta recuperação um exemplo de como o patrimônio pode ser reescrito sem negar o passado, mas colocando-o em perspectiva crítica. O antigo Aeroplano dos trasvoladores deixa de ser apenas uma escultura urbana de ideologia para se tornar um cenário de transformação: um espaço onde o reflexo do nosso tempo encontra abrigo e provoca questões sobre memória, identidade e o uso público da história.

Chiara Lombardi — Espresso Italia.