Alevtina Kakhidze critica retorno do Pavilhão da Rússia à Bienal: 'Ou não entende o mundo ou coopera com Moscou'
Alevtina Kakhidze critica o retorno do Pavilhão da Rússia à Bienal de Veneza: 'ou não entende o mundo ou coopera com Moscou'.
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Alevtina Kakhidze critica retorno do Pavilhão da Rússia à Bienal: 'Ou não entende o mundo ou coopera com Moscou'
Por Chiara Lombardi — Em um momento em que as artes funcionam como espelho do nosso tempo, a artista ucraniana Alevtina Kakhidze lança um alerta direto sobre a decisão de permitir o retorno do Pavilhão da Rússia à Bienal de Veneza. Em entrevista à Espresso Italia, Kakhidze declarou que quem autorizou essa reabertura 'ou não compreende o mundo em que vive ou coopera conscientemente com Moscou', referindo-se a um país que, segundo ela, comete crimes de magnitude inédita na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.
A voz de Kakhidze não é apenas a de uma artista engajada: é a de quem carrega as cicatrizes de um conflito de longa duração. Nascida em Zhdanivka, na região de Donetsk — ocupada por forças pró-russas desde 2014 —, ela conhece a guerra como experiência cotidiana. Desde 2008 vive em Muzychi, a 26 km de Kiev e a curta distância de Bucha, onde registrou em obra o massacre de civis perpetrado nas fases iniciais da invasão. Sua trajetória inclui representações internacionais relevantes: representou a Ucrânia na Bienal de Malta em 2024, expôs na Base em Milão, participou da Manifesta 10 em São Petersburgo (2014) e integrou o projeto Working for Change no Pavilhão do Marrocos na 54ª Bienal de Veneza (2011).
Ao comentar a reintrodução oficial da Rússia na mostra que se abrirá em maio, Kakhidze enfatiza que a presença do país não se compensa simplesmente abrindo um espaço para artistas russos dissidentes, ao lado do projeto 'The Tree is Rooted in the Sky' curado por Anastasia Karneeva. A objeção é dupla: moral e prática. 'A guerra está em curso', lembra ela, e isso torna a decisão problemática tanto em termos simbólicos quanto logísticos.
A artista descreve o peso crescente dos anos: 'Desde 2014, cada dia é mais pesado para mim. São quase 12 anos convivendo com a guerra'. Kakhidze relata perdas pessoais: amigos que se alistaram e foram mortos — citando nomes como Margarita Polovinko, artista e piloto de drones, e David Chickan, artista e operador de morteiro. Conta também os deslocamentos forçados de pessoas queridas cujas casas foram destruídas, e o trauma sofrido por sua tia, ainda recuperando-se dos impactos psicológicos e físicos dos bombardeios.
O cotidiano da guerra se manifesta em detalhes: 'Devido às ações da Rússia, vivemos o inverno mais difícil que podíamos imaginar — sem eletricidade por mais de quatro dias seguidos, com -28ºC', diz Kakhidze. 'Estamos exaustos desta guerra enquanto o mundo age cada vez mais como se ela não existisse', acrescenta, alinhando sua crítica ao retorno da Rússia na Bienal com outros sinais de normalização, como a readmissão de atletas russos nos Jogos Paraolímpicos de Inverno em Cortina e o afrouxamento de certas sanções.
Sobre a ideia de criar um espaço para artistas russos dissidentes em Veneza, Kakhidze questiona, antes de tudo, a viabilidade dessa proposta: sua objeção revela um olhar pragmático sobre o que significa fazer arte em tempos de conflito — não apenas um gesto simbólico, mas uma operação ética dentro de um cenário de transformação global. Como observadora do zeitgeist cultural, percebo nesta posição um reframe necessário: a arte não é neutra quando o roteiro oculto da sociedade inclui violência de Estado. A fala de Kakhidze é um lembrete contundente de que as decisões curatoriais em grande escala têm um peso político e simbólico que ressoa muito além das galerias.
Em suma, a intervenção de Alevtina Kakhidze na discussão sobre a Bienal de Veneza nos obriga a perguntar não só 'o que' é exibido, mas 'porquê' e 'para quem'. É o tipo de questionamento que transforma uma exposição em cima de parede em um documento vibrante do nosso tempo — um verdadeiro espelho cultural onde se lê o roteiro oculto da época.