Noite de Oscars: 'Uma batalha após a outra' de Anderson domina enquanto a política sussurra

Anderson domina os Oscars com 'Uma batalha após a outra'; Coogler e Michael B. Jordan brilham enquanto política sussurra nos gestos e discursos.

Noite de Oscars: 'Uma batalha após a outra' de Anderson domina enquanto a política sussurra

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Noite de Oscars: 'Uma batalha após a outra' de Anderson domina enquanto a política sussurra

Por Chiara Lombardi — Em Los Angeles, a cerimônia dos Oscars foi, sobre tudo, uma celebração do cinema — ainda que o palco tenha funcionado como um espelho cortante do nosso tempo. Paul Thomas Anderson e seu filme Uma batalha após a outra foram os grandes protagonistas da noite, conquistando seis estatuetas e firmando-se como o filme que melhor encenou a tensão entre autoritarismo, controle do governo e a cultura da paranoia. A obra, claramente uma comédia política que denuncia a repressão e exalta a resistência civil, atuou como um roteiro oculto da sociedade contemporânea: muito americano na ambientação, mas universal no diagnóstico.

Ao lado dele, o segundo vencedor em destaque foi Sinners - I peccatori, de Ryan Coogler, que levou quatro Oscars. O filme, ambientado numa América rural dos anos 1930, devolve ao cinema a discussão sobre identidade, trauma dos afro-americanos e o legado racista do país. Michael B. Jordan conquistou o Oscar de melhor ator ao interpretar, de forma inquietante, os gêmeos Smoke e Stack — um feito inédito na história da premiação quando se trata de um prêmio ao desempenho em um duplo papel. Coogler ainda faturou a melhor roteiro original.

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No palco do Dolby Theatre, a cerimônia preferiu manter os tons baixos em relação a declarações políticas diretas. Ainda assim, foram gestos e frases sutis a marcar momentos: Javier Bardem subiu ao palco com inscrições no traje pedindo o fim da guerra e uma "Palestina livre", enquanto Anderson, em seu discurso, adotou um tom pessoal e político quando disse: "Peço desculpas aos meus filhos pela bagunça que semeamos neste mundo... espero que eles tragam de volta um pouco de bom senso e decência". Essas falas funcionaram mais como reflexos do zeitgeist do que como proclamações explícitas.

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O anfitrião Brian O'Connor, que já havia escolhido ano passado reduzir a política em seus monólogos como ruptura com a linha de talk show de Jimmy Kimmel, conduziu a noite valorizando o espetáculo. A escolha da linha editorial — fazer o show a todo custo, porém menos atacável — também foi resposta às dúvidas que cercaram a produção: era apropriado celebrar a indústria com o mundo em conflito no Oriente Médio?

Entre os demais prêmios, Anderson foi reconhecido com o Oscar de melhor filme, melhor direção e melhor roteiro adaptado (baseado em um romance de Thomas Pynchon). O Oscar de melhor ator coadjuvante ficou com Sean Penn, que, porém, não compareceu à cerimônia. Houve ainda reconhecimento para casting — uma categoria recém-instituída — e edição.

A noite confirmou um movimento que observo como analista cultural: Hollywood prefere ser palco de espelhos sutis do mundo do que trincheira de debates crus. Isso não significa neutralidade — as imagens, roupas e desculpas públicas de artistas continuam fazendo política —, mas uma escolha consciente por um reframe que privilegia a arte como veículo de reflexão, não apenas de slogans. Em tempos de polarizações radicais, a cerimônia foi um roteiro elegante de contenção: a crítica estava lá, mas narrada com câmera lenta e grandeza cinematográfica.

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