Apparat: por que a eletrônica o entedia e o novo disco busca a essencialidade
Apparat, com o novo álbum A Hum of Maybe, rejeita efeitos visuais e busca a essência do ao vivo; Sascha Ring fala sobre eletrônica, AI e bloqueio criativo.
RESUMO ✦
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Apparat: por que a eletrônica o entedia e o novo disco busca a essencialidade
Por Chiara Lombardi — Em um momento em que a tecnologia promete acelerar a criação artística, Apparat emerge como um espelho crítico do nosso tempo: menos fascínio pela novidade técnica e mais busca pela substância. Sascha Ring, nome real do artista conhecido como Apparat e também um terço do projeto Moderat, chega à Itália com um discurso direto e sem concessões sobre a cena eletrônica contemporânea e sobre seu novo trabalho, A Hum of Maybe.
O músico alemão, hoje com 47 anos, assume que já não se sente parte do universo eletrônico como antes. «Vim daquela cena e sou grato; nos anos 90 havia uma enorme inovação, mas depois me afastei porque me anunciava», diz Ring. A mudança não foi cosmética: com o novo álbum, ele declara ter-se transformado definitivamente em uma banda. «Tocamos tudo ao vivo e a eletrônica é apenas uma cor na paleta sonora», explica.
Essa postura se traduz em recusa ao espetáculo hiperstimulante. Cansado dos «shows à la Las Vegas», Apparat anuncia que, na turnê italiana, não haverá nenhum efeito visual: a prioridade será o som, o corpo dos músicos em cena e a experiência coletiva do público. «Quero apenas tocar da melhor forma possível», afirma. Em tom provocador, confessa que, se pudesse, entregaria os telefones no guarda‑roupa — uma fantasia autoritária que revela, na verdade, um desejo legítimo de presença: ver como algo é criado diante dos olhos em vez de consumi‑lo filtrado por telas.
Sobre a paisagem musical das últimas décadas, a avaliação é firme. Ring considera os últimos 15 anos «um pouco monótonos» em termos de inovação. Quando começou, havia territórios sonoros inexplorados; hoje, segundo ele, faltam propostas verdadeiramente frescas. Mesmo a discussão em torno da AI não o entusiasma: «Criar algo novo é exatamente o que a AI não pode fazer», diz, apontando que a tecnologia apenas recicla — com maior velocidade, é verdade — aquilo que já existe. E lembra, com ironia sutil, que os humanos não estão isentos desse processo de reciclagem.
O contexto pessoal também foi decisivo para o novo álbum. Após um longo bloqueio criativo, que o fez questionar se deveria até abandonar a música num mundo saturado de sons, Ring reconstruiu seu impulso artístico. Esse retorno vem acompanhado de escolhas estéticas claras: menos artifício, mais corporeidade sonora, como se o artista fizesse um reframe da realidade musical e voltasse a olhar para a essência do gesto performativo.
Além da carreira como performer, é relevante lembrar que Sascha Ring assinou duas trilhas sonoras para o cineasta Mario Martone, conexões que reforçam seu lugar entre a música e a cena cultural europeia. Na Itália, Apparat se apresenta em duas noites já anunciadas — dia 15 em Milão e dia 16 em Roma, ambas com ingressos esgotados — e ainda volta para quatro datas no verão.
Mais do que um artista que diverge tecnicamente das raízes eletrônicas, Apparat propõe um modelo de resistência estética: o live como testemunho, a música como espaço de criação compartilhada, e a simplicidade como forma de intensidade. Em tempos de aceleração e recortes algorítmicos, sua escolha pela essencialidade funciona como um pequeno manifesto — um roteiro oculto que nos lembra por que fomos ao concerto em primeiro lugar.