Por que a Europa precisa de uma 'BCE da energia' para guiar a transição

Por que a União Europeia precisa de uma 'BCE da energia' para gerir o ETS e proteger indústrias na transição energética.

Por que a Europa precisa de uma 'BCE da energia' para guiar a transição

RESUMO ✦

Sem tempo? A Lili IA resume para você

Gerando resumo com IA...

Por que a Europa precisa de uma 'BCE da energia' para guiar a transição

O espectro de uma crise energética deixou de ser apenas um cenário de filme distópico para se tornar uma presença no nosso cotidiano desde as guerras na Ucrânia e no Irã. Em resposta à explosão dos preços do gás, governos como o italiano e o alemão pedem à União Europeia a revisão do Green Deal, chegando a sugerir a eliminação do sistema ETS — o mecanismo europeu que coloca preço sobre as emissões de CO2.

O ETS obriga quem emite CO2 a adquirir permissões de emissão vendidas em leilões, com oferta limitada pelo acordo europeu. Atualmente, o custo dos ETS pesa em torno de 20% do preço de atacado da eletricidade. Mas este peso não recai apenas sobre as centrais a gás e carvão: atingem também as indústrias intensivas em combustíveis fósseis — do aço ao cimento, do vidro à cerâmica — que sofrem uma dupla penalização, pagando pela CO2 que emitem e pelo aumento do preço da eletricidade que consomem.

Por isso, o apelo à suspensão do ETS é compreensível do ponto de vista imediato de competitividade. No entanto, apagar o mecanismo seria como cortar a fotografia do futuro do roteiro da nossa sociedade: uma decisão de curto prazo que compromete a coerência estratégica da transição energética. O ETS foi uma política inteligente que transformou a Europa num dos campeões das fontes renováveis. Hoje, no continente, eólica e solar concentram 60% dos investimentos em energia e respondem por cerca de 30% da produção — na Itália esse número chega a 40%.

O dilema real não é entre manter ou eliminar o ETS, mas em como torná‑lo mais flexível e resiliente a choques geopolíticos. Aqui entra a metáfora monetária que muitos economistas já propuseram: se tivemos uma autoridade independente para gerir a moeda — o Banco Central Europeu — por que não uma instituição análoga para a energia? Uma espécie de BCE da energia ou Banco Central da Energia, independente, capaz de gerir a transição com instrumentos que suavizem rupturas sem anular os incentivos para descarbonizar.

Uma autoridade assim poderia implementar mecanismos temporários e calibrados: um corredor de preços do carbono que limite oscilações extremas, leilões adaptativos de permissões, reservas estratégicas para emergências e medidas de apoio seletivo às indústrias em processo de descarbonização. Também poderia coordenar medidas de demanda — inclusive propostas drásticas como limitar voos em casos extremos — garantindo que restrições sejam proporcionais e distribuídas de forma equitativa entre os Estados-membros.

Além disso, a história recente mostra o custo do chamado «stop and go»: políticas que alternam estímulos generosos e recuos abruptos, como vimos em programas de incentivo mal calibrados. A Itália, por exemplo, não é estranha a esse padrão. Sem uma instituição independente que dite regras previsíveis, corremos o risco de minar a confiança dos investidores nas fontes renováveis e abrir espaço para quem — como as indústrias chinesas — avança em escala e custo nas tecnologias verdes.

Há também diferenças nacionais que tornam inviável uma solução única e simplista. A Espanha, com cerca de 80% da eletricidade proveniente de fontes não fósseis (60% renováveis e 20% nuclear), tem experimentado preços mais baixos mesmo diante da crise. Portanto, a alternativa sensata passa por adaptar o ETS, não exterminá‑lo: flexibilidade, instrumentos contracíclicos e uma governança supranacional independente que evite decisões tomadas sob pressão de curto prazo.

Ver a proposta de uma BCE da energia como um ajuste institucional é também ler o presente como um espelho do nosso tempo: o projeto europeu precisa de um novo roteiro oculto, uma semiótica institucional que traduza choques geopolíticos em respostas técnicas e previsíveis, e não em improvisos políticos. O desafio é grande, mas a alternativa — abandonar o instrumento que impulsionou a revolução renovável europeia — seria um retrocesso com efeitos de longo prazo. Em suma: transformar choque em oportunidade exige uma autoridade que pense em décadas, não em trimestres.