Júri da Biennale de Veneza renuncia em bloco após visita de inspetores e polêmica sobre exclusão de Rússia e Israel
Júri da Biennale de Veneza renuncia após visita de inspetores; havia excluído Rússia e Israel dos prêmios por acusações da Corte Penal Internacional.
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Júri da Biennale de Veneza renuncia em bloco após visita de inspetores e polêmica sobre exclusão de Rússia e Israel
Biennale di Venezia: em um movimento que reverbera além dos pavilhões, a Giuria internazionale da 61ª Exposição Internacional de Arte apresentou demissão coletiva. O anúncio segue a visita de quatro inspetores do Ministério da Cultura, que nos últimos dois dias fiscalizaram procedimentos e tensões internas. A decisão do júri vinha na esteira da já controversa exclusão da Rússia e de Israel da disputa por prêmios.
A nota oficial da fundação confirma que "em data odierna sono pervenute le dimissioni della Giuria internazionale della 61. Esposizione Internazionale d'Arte, In Minor Keys di Koyo Kouoh (9 maggio – 22 novembre 2026)", composta por Solange Farkas (presidente), Zoe Butt, Elvira Dyangani Ose, Marta Kuzma e Giovanna Zapperi. É uma saída em bloco que transforma a crise administrativa em acontecimento público.
Nos bastidores, a visita dos inspetores foi provocada por atritos entre o ministro Alessandro Giuli e a direção da Biennale, aqui representada por Pietrangelo Buttafuoco. A faísca imediata foi a decisão — tomada dias antes — de excluir Rússia e Israel dos prêmios, posição que uniu em rara consonância críticas políticas e culturais: a reabertura do pavilhão de Moscou havia gerado debate, e agora as sanções simbólicas da giuria elevaram a questão a um problema institucional.
O comunicado da própria giuria justificava a medida como expressão de uma "responsabilidade verso il ruolo storico della Biennale come piattaforma che connette l’arte alle urgenze del suo tempo" e apontava a "difesa dei diritti umani" como bússola, em continuidade com a visão curatorial da diretora artística Koyo Kouoh, falecida em maio de 2025. Mais enfático, o texto afirmava: "Di conseguenza, questa giuria si asterrà dal considerare quei Paesi i cui leader sono attualmente accusati di crimini contro l’umanità dalla Corte Penal Internacional".
Os alvos explícitos da medida foram referenciados com base em fatos recentes: o mandado de prisão emitido contra o presidente russo Vladimir Putin em 2023 e o provimento similar contra o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu em 2024, ambos pela Corte Penal Internacional. A decisão, por si só, funciona como um espelho do nosso tempo: a arte deslocando-se do campo puramente estético para um palco de responsabilização política e memória.
Em paralelo, a Biennale anunciou a criação de dois novos prêmios — os Leoni dei Visitatori — que consagrarão o melhor participante e a melhor Participação Nacional segundo o voto do público. Visitantes que possuam ingresso e passarem por ambas as sedes expositivas entre 9 de maio e 22 de novembro poderão votar uma vez em cada categoria, ampliando o diálogo entre instituição e público.
Como analista cultural, vejo nessa sequência de eventos o roteiro oculto de uma instituição que está em processo de reframe: a Biennale não é apenas um mercado de reputações, é também uma cartografia das tensões internacionais, um eco cultural que traduz — por vezes de forma conflitiva — a geopolitização do contemporâneo. A renúncia coletiva da Giuria internazionale inaugura um capítulo onde o que está em jogo é tanto a integridade do júri quanto o papel da Biennale como espelho crítico das urgências globais.
Os próximos dias serão decisivos para entender quem irá substituir a giuria, como serão conduzidas as apurações internas após a inspeção ministerial e se os novos prêmios dos visitantes conseguirão redirecionar o foco para a experiência do público. Até lá, a Biennale permanece um cenário de transformação, onde cada gesto discursivo ou institucional compõe o roteiro mais amplo da cultura em tempos de crise.