Biennale de Veneza 2026: 'In Minor Keys', 111 participantes e polêmica política sobre artistas russos

Biennale de Veneza 2026: 'In Minor Keys' com 111 participantes, controvérsia sobre artistas russos e homenagem ao projeto de Koyo Kouoh.

Biennale de Veneza 2026: 'In Minor Keys', 111 participantes e polêmica política sobre artistas russos

RESUMO ✦

Sem tempo? A Lili IA resume para você

Gerando resumo com IA...

Biennale de Veneza 2026: 'In Minor Keys', 111 participantes e polêmica política sobre artistas russos

Por Chiara Lombardi — A 61ª Exposição Internacional de Arte da Biennale de Veneza chega com um título que soa como um convite à reflexão: "In Minor Keys" — ou, em tradução livre, "em tonalidades menores" — propondo introspecção, cuidado e narrativas discretas. Porém, a poeira política levantada nos bastidores força a edição a ser lembrada por seu ruído público, mais do que por sua contemplação silenciosa: o espelho do nosso tempo mostra que a arte raramente existe fora do campo de batalha do político.

O estopim foi a decisão, anunciada em 4 de março, de permitir a participação de artistas russos. A medida gerou um conflito aberto entre o presidente da Biennale, Pietrangelo Buttafuoco, e o ministro da Cultura, Alessandro Giuli. O episódio incluiu o envio de inspetores do ministério à Ca' Giustinian — sede da Biennale — para averiguar possível violação das sanções impostas à Rússia após a invasão da Ucrânia; culminou com a demissão da comissão julgadora e na inédita convocação de uma "julgamento popular" entre os visitantes.

No centro das controvérsias estava o pavilhão russo, que ficará aberto apenas durante os dias de pré-abertura e permanecerá fechado durante o restante da mostra. Por razões correlatas, a presença de artistas israelenses também foi objeto de debate. A exposição ao público está marcada de sábado, 9 de maio, a domingo, 22 de novembro, nos Giardini, no Arsenale e em diversos espaços da cidade; a pré-abertura ocorrerá nos dias 6, 7 e 8 de maio.

Outra consequência prática do conflito institucional: não haverá a tradicional cerimônia de inauguração e premiações no dia de abertura, já que a comissão avaliadora renunciou. Em vez disso, serão entregues dois Leões — um para o melhor artista e outro para o melhor país — decididos pelo voto dos visitantes no dia 22 de novembro. É um reframe simbólico: a curadoria deixa parte do veredicto na mão do público, transformando a plateia em ator crítico.

Por trás da controvérsia, porém, pulsa o projeto curatorial idealizado por Koyo Kouoh, cuja morte prematura em maio de 2025 deixou um vácuo e, ao mesmo tempo, um legado. Com o apoio da família, a Biennale optou por realizar a mostra conforme o projeto que ela já havia estruturado — texto teórico, seleção de artistas, catálogo, identidade gráfica e arquitetura dos espaços — em um gesto de preservação e de respeito ao roteiro que ela vinha construindo.

Ao todo, são 111 participantes — entre artistas solo, duos, coletivos e organizações — vindos de contextos geográficos diversos. Koyo privilegiou ressonâncias e afinidades, abrindo campo para convergências entre práticas distantes: realidades ativas em Salvador, Dakar, San Juan, Beirute, Paris e Nashville compõem essa geografia relacional. In Minor Keys pretende, assim, devolver e ampliar essa cartografia de encontros, convertendo trajetórias individuais em uma malha de diálogos.

Se a Biennale se apresenta como um roteiro curatorial cuidadosamente desenhado, a sequência de eventos políticos nos lembra que as instituições culturais são cenários de manifestação — e por vezes colisão — de valores. Esta edição, portanto, funciona como uma lente: mais do que um catálogo de obras, é um mapa das tensões contemporâneas, um convite a observar o roteiro oculto da sociedade que se revela quando arte e política se encontram.