Black Strat de David Gilmour é vendida por US$ 14,5 milhões e volta a ser a guitarra mais cara do mundo
A icônica Black Strat de David Gilmour foi vendida por US$14,5 milhões na Christie's e volta ao topo como a guitarra mais cara do mundo.
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Black Strat de David Gilmour é vendida por US$ 14,5 milhões e volta a ser a guitarra mais cara do mundo
Por Chiara Lombardi — Em um gesto que mistura valor histórico e mito do rock, a icônica Black Strat de David Gilmour voltou a assumir o topo das vendas de instrumentos: foi arrematada por 14,5 milhões de dólares em leilão realizado pela Christie's em Nova York. A guitarra, que ajudou a moldar a sonoridade dos Pink Floyd, retorna ao pódio dos instrumentos mais caros do mundo, reafirmando seu estatuto de artefato cultural e objeto de desejo.
Comprada por Gilmour quase por desespero em 1970 na loja Manny’s, em Nova York — após a banda ter perdido todo o equipamento em um roubo durante a parada em New Orleans da turnê pelos Estados Unidos — a Black Strat tornou-se voz central de álbuns como The Dark Side of the Moon, Wish You Were Here, Animals e The Wall. Marcas sonoras como Money, Shine On You Crazy Diamond e, sobretudo, o solo de Comfortably Numb carregam a sua assinatura.
Estimada inicialmente entre 2 e 4 milhões de dólares, a peça foi vendida no leilão titulado "Jim Irsay Collection: All of Fame" — evento que reuniu uma enorme coleção pertencente ao ex-proprietário do time de futebol americano Indianapolis Colts. Irsay havia adquirido a Black Strat em 2019 por 3,97 milhões de dólares, cifra que na ocasião estabeleceu um recorde pessoal e chamou a atenção do mercado de memorabilia musical.
Após o falecimento de Jim Irsay, em maio de 2025, sua família decidiu colocar à venda a vasta coleção de instrumentos. Na primeira das três sessões ao vivo do leilão, todas as 44 lotes foram arrematados, com uma valorização média que quase quadruplicou e um total superior a 84 milhões de dólares, com comissões incluídas — um verdadeiro espelho do tempo em que objetos culturais se transformam em índices de memória e mercado.
No pódio das guitarras mais caras também figuram a Doug Irwin tocada por Jerry Garcia, vendida por 11,5 milhões de dólares, e a Fender Mustang usada por Kurt Cobain no vídeo de Smells Like Teen Spirit, arrematada por 6,907 milhões de dólares. Em 2020, a Martin D-18E de 1959 — associada ao icônico especial “MTV Unplugged” de Kurt Cobain — havia alcançado 6,01 milhões de dólares, superando o recorde anterior.
Mais do que cifras, a venda da Black Strat funciona como um recorte: mostra como o valor monetário se entrelaça ao valor simbólico. É o roteiro oculto da indústria cultural em que um instrumento deixa de ser apenas ferramenta e se converte em testemunho material de uma era. Para quem observa o zeitgeist do entretenimento, a trajetória dessa guitarra é parte do patrimônio afetivo coletivo — uma peça que, como um espelho, reflete memórias, lendas e o contínuo reframe da nossa relação com a música.
Enquanto o martelo fecha negócios e reescreve rankings, permanece a pergunta estética: quando uma guitarra entra em um museu privado, o que perdemos em performance e o que ganhamos em preservação? A Black Strat segue, enfim, na encruzilhada entre o palco e a vitrine.


