Bolonha em ebulição: D'Annunzio, Croce e o debate pela sucessão de Pascoli na Universidade
Debate em Bolonha sobre o sucessor de Pascoli esquenta: D'Annunzio é favorito; Croce e Farinelli surgem como alternativas entre professores e estudantes.
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Bolonha em ebulição: D'Annunzio, Croce e o debate pela sucessão de Pascoli na Universidade
Por Chiara Lombardi - A cena intelectual de Bolonha transformou-se, por alguns dias, num verdadeiro palco emblemático onde se encenam as tensões entre tradição e renovação. O anúncio da escolha do sucessor de Giovanni Pascoli na cátedra da Universidade de Bolonha desencadeou um burburinho que atravessa cafés, salas acadêmicas e livrarias — um verdadeiro eco cultural que diz muito sobre o roteiro oculto da nossa vida pública.
Em todas as rodas de debate, a mesma afluência de apoio: o nome de Gabriele D'Annunzio ressurge como favorito apaixonado. Estudantes — movidos por um entusiasmo que descrevo como um fervor quase performático — apoiam o poeta abruzzês com intensa veemência. Nos encontros noturnos da histórica livraria Zanichelli, sob a presidência entusiasta do comerciante Cesare Zanichelli, as discussões aquecem-se enquanto Giulio Padovani defende D'Annunzio com um ardor comparável ao de um jovem leão.
Mesmo entre os opositores, poucos se atrevem a erguer voz diante de tanto consenso público; são minoritários e cautelosos. Curiosamente, a maior parte do corpo docente também tende a favorecer a candidatura do poeta. A sinalização pública de professores das faculdades de ciências e de direito — que demonstraram, nesta ocasião, uma liberdade de julgamento e um gesto anti-acadêmico revelador — reforça a ideia de uma universidade que busca aproximar a cátedra do grande público.
É aqui, acredito, que se projeta um desejo mais amplo: reconciliar a escola com a vida, a sala de aula com o pulso da nação. Os estudantes clamam por essa reconexão e não admitem que, num momento de renovação cultural, lhes seja negada a participação. Em visita rápida à Universidade pouco antes do comício, fui surpreendida pelo tom de pista de corrida: previsões, opiniões e palpites formavam uma multidão de vozes. Diante delas, sequer era possível discutir — o entusiasmo era tão vivo e quente que circulavam apenas manifestações de apoio ao nome único de D'Annunzio.
Não faltaram outros nomes levantados em meio à agitação: quando um jovem propôs Guido Mazzoni, a reação foi tão feroz que quase se transformou em agressão. Mais comedida, porém robusta, é a simpatia por Benedetto Croce, considerado uma alternativa respeitável caso a vinda de D'Annunzio se mostrasse impraticável; o crítico e historiador reúne admiração por manter um perfil intelectual que pode manter a tradição poética da cátedra. Outro nome que colhe defensores é o de Arturo Farinelli, crítico de projecção europeia cuja formação e olhar crítico evocam uma leitura mais cosmopolita da posição.
Entre conversas reservadas, um professor alertou para riscos políticos: designar D'Annunzio poderia provocar antipatia e até um boicote por parte de outras faculdades literárias italianas — lembranças amargas voltam quando se lembra da chamada a Giovanni Pascoli, que também enfrentou rancores, exclusões de comissões e hostilidades. A sucessão, no entendimento de muitos, é tratada além do mérito cultural: põe-se em jogo uma máquina burocrática com suas alianças e ressentimentos.
Este episódio é, em suma, mais do que uma disputa por uma cátedra. É o espelho do nosso tempo: um ponto de inflexão onde memória, identidade e a vontade de reinvenção pública se encontram. Se o debate em Bolonha nos fala algo, é que o teatro da universidade permanece um lugar sensível — e decididamente, político — para a produção da cultura nacional.