Buttafuoco: Bienal de Veneza é um jardim de paz que protege a liberdade e abre o diálogo
Buttafuoco defende a Bienal de Veneza como jardim de paz: autonomia, liberdade artística e diálogo diante das pressões por censura.
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Buttafuoco: Bienal de Veneza é um jardim de paz que protege a liberdade e abre o diálogo
Por Chiara Lombardi — Na apresentação da 61ª Biennale Arte, o presidente Pietrangelo Buttafuoco fez uma defesa enfática da autonomia institucional e do papel da arte como espaço de confronto e convivência. Para Buttafuoco, a Bienal não é um tribunal: é um jardim de paz onde se cultivam perguntas, tensões e convivências que refletem o espelho do nosso tempo.
Na conferência de imprensa, o dirigente lembrou que na mostra estão representadas tanto a Ucrânia quanto a Rússia, e citou também a experiência da Mostra del Cinema, onde viu próximas as bandeiras do Irã e de Israel. “Em Veneza não empunhamos armas: si vis pacem, para pacem”, evocou, atribuindo a formulação do clima à curadora Koyo Kouoh. O argumento é simples e contundente: a função da Bienal é exibir, provocar questões e abrir diálogos, não emitir veredictos sumaríssimos.
Buttafuoco manifestou preocupação com o que chamou de “censura antecipada”, isto é, posicionamentos públicos que, antes mesmo do confronto e da fruição das obras, constroem um veredito e buscam excluir previamente. “Aqui o único veto é a exclusão preventiva”, disse, sublinhando que o evento não aceitará a barganha de 130 anos de história cultural em nome de um confortável quieto viver político.
Vestindo a cidade como cenário simbólico, o presidente recordou a vocação milenar de Veneza para o encontro com o diferente: uma cidade que não exige pureza para acolher. “Veneza não pediu jamais ao mundo que fosse puro para entrar. Ela acolhe diferenças, contradições e conflitos e os transforma em diálogo e convivência.” A Fundação Bienal, completou, há mais de um século recolhe tensões e visões sem reduzi-las a slogans.
Ao tocar no debate institucional, Buttafuoco citou o presidente da República, Sergio Mattarella, e sua exortação à “liberdade e audácia” dirigida aos artistas. Também comentou a intervenção da primeira‑ministra Giorgia Meloni, cuja ênfase na autonomia da Fondazione Biennale foi recebida com um reconhecimento crítico: “a Fondazione Biennale di Venezia è autonoma — disse Meloni —, non sono d’accordo ma...”, uma ressalva que, nas palavras do presidente, reforça paradoxalmente a centralidade da liberdade e da autonomia cultural.
Enquanto observadora cultural, eu interpreto essas falas como um lembrete de que a arte institucionalizada age como uma lente — ou, melhor ainda, como um roteiro oculto — que nos força a olhar as contradições sem simplificações. Defender a presença de vozes conflitantes numa mesma mostra é, hoje, um gesto político que aposta na comunicação e na convivência como antídoto para o fechamento das esferas públicas.
Na prática, a Bienal que se anuncia não promete soluções fáceis. Promete, sim, um terreno de perguntas: a experiência curatorial de Koyo Kouoh, a pluralidade de representações nacionais e a recusa da censura preventiva compõem um diagnóstico claro sobre o que significa manter espaços culturais abertos num tempo de polarizações. É esse reframe da realidade — a exposição como convite ao diálogo — que Buttafuoco coloca como guardião.
Em suma, a mensagem é esta: a Bienal continua sendo um espaço onde a liberdade artística e o diálogo público prevalecem sobre a pressa de julgar. E, como todo bom roteiro cultural, abre cortes, insinua contradições e pede ao público que participe da montagem de sentidos.