Cannes dia 3: Pawlikowski e Farhadi com 'Fatherland' e 'Histoires parallèles' no centro do festival
Cannes dia 3: Pawlikowski e Farhadi trazem 'Fatherland' e 'Histoires parallèles' ao festival, entre memória histórica e jogos entre ficção e realidade.
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Cannes dia 3: Pawlikowski e Farhadi com 'Fatherland' e 'Histoires parallèles' no centro do festival
Terceiro dia do Festival de Cannes e a seleção oficial confirma o seu rumo: figuras já centrais no cinema autoral ocupam o palco principal. Às 18h, a competição apresenta Fatherland, de Paweł Pawlikowsk, seguido às 20h30 por Histoires parallèles (Parallel Tales), do iraniano Asghar Farhadi. Dois filmes que, à primeira vista, dialogam com memórias — pessoais e coletivas — e com o modo como o passado se projeta no presente.
Na Salle Debussy, a seleção reafirma um olhar sobre autores consagrados e sobre a escrita cinematográfica que busca atravessar épocas. O programa de hoje também inclui, em Un Certain Regard, Quelques mots d'amour, de Rudi Rosenberg, e Eldeshielo (The Meltdown), de Manuela Martelli — mostras que seguem oferecendo contrapontos interessantes às vozes do júri.
O Cinéma de la Plage continua a reunir público todas as noites às 21h30 na Plage Macé Brigitte Bardot, com projeções gratuitas, convidados e encontros abertos: a praia vira, mais uma vez, um espaço público de arquivo e projeção, como um espelho do nosso tempo onde cinema e sociedade se refletem.
Fatherland é ambientado em 1949 e retoma um episódio histórico carregado de simbolismo: Thomas Mann, prêmio Nobel de Literatura, volta à Alemanha pela primeira vez desde o fim da guerra, acompanhado da filha Erika — atriz, escritora e piloto de rali. Ao volante de uma Buick preta, pai e filha empreendem uma viagem dolorosa através de uma nação da qual fugiram dezesseis anos antes, quando o Partido Nazista subiu ao poder. De Frankfurt, sob ocupação americana, até Weimar, controlada pelos soviéticos, a dupla percorre uma Alemanha em ruínas e dividida pela Guerra Fria. É um enredo que explora memória, deslocamento e a paisagem como documento histórico: o filme promete ser um estudo sobre identidade europeia e as cicatrizes que definem um continente.
Histoires parallèles, por sua vez, investiga fronteiras mais íntimas entre vida e ficção. A história acompanha Sylvie, que, em busca de inspiração para seu novo romance, observa os vizinhos do outro lado da rua. Ao contratar o jovem Adam para ajudá-la nas tarefas diárias, ela não prevê que ele alterará profundamente sua existência e seu trabalho, ao ponto de fazer a ficção que ela imaginou se sobrepor à própria realidade. No elenco, nomes de peso: Isabelle Huppert, Virginie Efira, Vincent Cassel, Pierre Niney e Adam Bessa. Farhadi volta a mapear relações humanas sob tensão moral, agora com a metalinguagem como dispositivo narrativo.
Hoje, Cannes oferece mais do que estreias: oferece um reframe da memória cultural europeia e um diálogo entre estilos autorais. Como crítica cultural, observo que a seleção sublinha o festival como um palco onde o passado europeu e a ética das personagens conversam com o presente global — o cinema aparece como roteiro oculto da sociedade, convidando-nos a ler as imagens como documentos e metáforas vivas.
Para os observadores do zeitgeist, é um dia para notar como a grande tela continua a ser, apesar de tudo, o espelho onde projetamos as nossas inquietações coletivas.