Cannes 2026 amplia seleção sem representantes italianos; James Gray traz 'Paper Tiger' ao concurso

Cannes 2026 amplia seleção sem títulos italianos; James Gray e 'Paper Tiger' entram no concurso principal. Saiba os novos filmes anunciados.

Cannes 2026 amplia seleção sem representantes italianos; James Gray traz 'Paper Tiger' ao concurso

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Cannes 2026 amplia seleção sem representantes italianos; James Gray traz 'Paper Tiger' ao concurso

Por Chiara Lombardi — Em mais uma virada de espelho do circuito dos festivais, o Festival de Cannes revelou novos títulos que completam sua seleção oficial — e, novamente, não há espaço para o cinema italiano na competição principal. Essa omissão, repetida como um refrão, merece ser lida não só como ausência institucional, mas como sintoma de um diálogo cultural mais amplo entre mercados, curadorias e tendências estéticas.

O anúncio mais chamativo é a entrada de Paper Tiger, do cineasta James Gray, no concurso pela Palma d'Oro. Interpretado por Scarlett Johansson, Adam Driver e Miles Teller, o filme se apresenta como um thriller policial duro, centrado em dois irmãos que perseguem o sonho americano e acabam envolvidos num plano que parece bom demais para ser verdade. A presença deste elenco e a assinatura de Gray prometem um estudo de caráter denso — um “roteiro oculto da sociedade” que dialoga com mitos de ascensão e queda.

Na seção Un Certain Regard foram anunciados títulos que apontam para um ecossistema de gêneros e sensibilidades variadas: o horror vitoriano Victorian Psycho de Zachary Wigon; Mémoire de fille de Judith Godrèche; e Titanic Ocean de Konstantina Kotzamani. Fecha a seção o filme Ulysse, de Laetitia Masson, indicado como Closing Film de Un Certain Regard. Juntas, essas escolhas desenham um mosaico onde tradição e experimentação se encontram, sugerindo tanto revisitações de formas clássicas quanto deslocamentos temáticos contemporâneos.

Para a janela Cannes Première chegam obras diversas: The End Of It, de Maria Martinez Bayona; Marie Madeleine, de Gessica Généus; Aquí, de Tiago Guedes; Mariage Au Goet D'Orange, de Christophe Honoré; e Si Tu Penses Bien, de Géraldine Nakache. A seção funciona como vitrine para filmes que falam tanto ao público quanto ao mercado — e que, muitas vezes, fornecem o contraponto comercial à seleção máxima.

Entre as projeções especiais figuram Vesna (Rostislav Kirpicenko), Ceniza En La Boca (Diego Luna), Tangles (Leah Nelson), Le Triangle D'Or (Hélène Rosselet-Ruiz), Groundswell (Joshua & Rebecca) e Tickell. Para a sessão familiar foi adicionado Lucy Lost, de Olivier Clert. São títulos que ampliam o festival para além do circuito de prêmios, configurando um mapa de experiências curatoriais e de mercado.

Na Semaine de la Critique, a diretora indiana Payal Kapadia foi confirmada como presidente da júri. Ela será acompanhada pelo ator canadense Théodore Pellerin, a cantora e compositora francesa Oklou, a produtora anglo-ganesa Ama Ampadu e o jornalista-diretor do Bangkok World Film Festival, Donsaron Kovitvanitcha. A composição do júri indica uma leitura global e plural das obras, onde emergências estéticas de diversas geografias ganham voz crítica.

Enquanto o calendário se completa, permanece a questão: por que o cinema italiano segue à margem do concurso principal? Essa ausência não é só estatística; é um índice de como as narrativas nacionais se posicionam (ou são posicionadas) no mercado internacional. Em termos de imagem cultural, cada seleção é um reflexo — e, ao mesmo tempo, um roteiro que redesenha a paisagem simbólica do ano.

Em breve, Cannes voltará a ser palco desse encontro de olhares e confrontos artísticos. Até lá, observamos os títulos anunciados como pistas do que o festival quer falar sobre o mundo agora: tensões políticas, memórias familiares, géneros reconfigurados e o eterno enigma do sonho versus realidade.