Cannes: 'Gentle Monster' revela a masculinidade tóxica (6-) e Yamaguchi entrega comovente humanidade (8)

Em Cannes, 'Gentle Monster' expõe a masculinidade tóxica (6-) enquanto Yamaguchi entrega comovente humanidade (8); Hamaguchi explora comunicação e cuidado.

Cannes: 'Gentle Monster' revela a masculinidade tóxica (6-) e Yamaguchi entrega comovente humanidade (8)

RESUMO ✦

Sem tempo? A Lili IA resume para você

Gerando resumo com IA...

Cannes: 'Gentle Monster' revela a masculinidade tóxica (6-) e Yamaguchi entrega comovente humanidade (8)

Por Chiara Lombardi — No roteiro oculto que atravessa a edição de Cannes, dois filmes apresentados ontem desenham paisagens emocionais muito diferentes – mas igualmente reveladoras do nosso tempo. De um lado, Gentle Monster, de Marie Kreutzer, investiga as consequências sociais de um escândalo; do outro, Soudain (All'improvviso), de Ryusuke Hamaguchi, mergulha na linguagem difícil da comunicação com a fragilidade humana. O crítico Mereghetti sintetiza com notas contrastantes: um 6- para o primeiro e um 8 para a extraordinária atuação de Yamaguchi em outro relato sobre a doença.

Gentle Monster ecoa o caso Florian Teichmeister: a história começa quando a polícia, comandada pela inspetora Elsa Kühn (Jella Haase), bate à porta do videomaker Philip Weiss (Laurence Rupp) por suspeitas de posse de material pedófilo. A surpresa maior, no entanto, recai sobre a esposa Lucy (Léa Seydoux), uma pianista elogiada que assiste, atônita, à destruição lenta do seu mundo — sobretudo quando o filho pequeno é levado imediatamente para a casa da avó, vivida por Catherine Deneuve.

O filme não se limita a uma investigação policial: Kreutzer desloca o foco para o impacto desses crimes na vida das mulheres ao redor dos acusados. A inspetora Elsa, por sua vez, convive com um pai com Alzheimer que, incapaz de controlar impulsos, empurra as cuidadoras para fora de sua casa. Assim, a narrativa transforma o procedimento investigativo numa lente para observar o peso da masculinidade tóxica e os contínuos sacrifícios das mulheres — entre medo, raiva e uma solidão que parece estrutural.

O roteiro, assinado pela própria diretora, evita cair no policial clássico: as cenas de inquérito servem mais como instrumento de denúncia social do que como motor dramático. O resultado é um filme denso, por vezes limítrofe, cuja força está menos na exposição factual e mais na montagem de emoções e relações que delineiam um panorama de cumplicidades e desencontros.

Soudain, com seus 196 minutos — o mais longo do concurso — propõe um exercício radical de empatia. Virginie Efira, como Marie-Lou, dirige um instituto de convalescença onde tenta aplicar métodos menos coercitivos com idosos afetados pelo Alzheimer e enfermidades afins. Tao Okamoto interpreta Mari, uma encenadora japonesa que trouxe a Paris uma peça sobre manicômios e sobre quem é confinado às margens da sociedade. Juntas, as duas tentam decifrar e restabelecer pontes com pessoas que parecem ter fechado comunicação com o mundo.

Hamaguchi constrói sequências íntimas que funcionam como espelhos do nosso tempo: o filme questiona o que significa escutar o outro quando a linguagem se desfaz, e propõe uma semiótica do cuidado que resiste ao ritmo acelerado da vida contemporânea. As atuações de Efira e Okamoto são passíveis de ser lidas como dois polos de um mesmo compromisso ético — a tentativa de preservar humanidade onde a sociedade tende a amputá-la.

Por fim, a menção a Yamaguchi aponta para outro relato exibido em Cannes, onde a representação da doença alcança um nível rara de verossimilhança e compaixão, motivo pelo qual Mereghetti atribui um 8: uma interpretação que não busca comover pelo melodrama, mas ao contrário, reinstala a dignidade do personagem em cena.

Em suma, os filmes vistos ontem não são apenas entretenimento; são pequenos roteiros do contemporâneo que nos pedem um olhar mais atento. Gentle Monster denuncia uma cultura de cumplicidade e silêncio, enquanto Soudain nos convoca a reparar a linguagem perdida entre gerações. Ambos, cada um à sua maneira, funcionam como um reframe da realidade — propostas cinematográficas que convidam a olhar além da superfície.