Cannes aposta na imersão: o italiano 'Red Planet 3009' compete na seção Immersive
No Festival de Cannes, 'Red Planet 3009' leva a Itália à seção Immersive com experiência VR 360 de Mariano Leotta e Francesco Fiore.
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Cannes aposta na imersão: o italiano 'Red Planet 3009' compete na seção Immersive
No cenário relativamente escasso de representações italianas na 79ª edição do Festival de Cannes (12-23 de maio), surge um contraponto eloquente na seção Immersive: entre as nove obras selecionadas para o concurso figura em estreia internacional Red Planet 3009, assinado por Mariano Leotta e Francesco Fiore e produzido por Alter Agent.
Red Planet 3009 é apresentado como uma experiência imersiva em 360 graus, pensada para transportar o público a uma visão especulativa e plausível de como poderia ser Marte no futuro. O projeto coloca o espectador na perspectiva de um rover dotado de inteligência artificial: uma narrativa que mistura prova técnica e construção ficcional, convidando a um passeio espacial-temporal onde a fronteira entre observador e máquina se dilui.
Segundo o material dos realizadores, a obra propõe "uma visita ao Planeta Vermelho no ano 3009": uma jornada que, além de entreter, funciona como um espelho do nosso tempo — um exercício de memória coletiva e de projeção de futuros possíveis, interrogando o que poderemos deixar para trás e o que levaremos adiante. É uma semiótica do viral aplicada ao espaço, onde a imagem e o olhar artificial reescrevem o roteiro da exploração.
A seção Immersive reúne nove projetos inovadores de oito países, todos em disputa pelo prêmio de Melhor Obra Imersiva. A terceira edição do Concurso Immersive do Festival acontece de 12 a 22 de maio, no Hotel Carlton, e amplia seu formato técnico: além das projeções em larga escala e das experiências de realidade virtual individuais, a curadoria apresenta uma nova configuração que permite vivências coletivas para até 200 participantes. Essa mudança técnica traduz o avanço da linguagem imersiva — um campo que reinventa como histórias são concebidas, compartilhadas e experienciadas.
Como observadora cultural, noto aqui um movimento relevante: enquanto o circuito tradicional do cinema ainda mede a presença nacional por longas e curtas, a inovação tecnológica abre fissuras onde a identidade cinematográfica pode ser reaprendida. Red Planet 3009 não é apenas mais uma peça de tecnologia; é um reframing da narrativa científica e ficcional, que entrelaça estética, ética e futuro. É como se o festival, em seu tapete vermelho, oferecesse também um espelho escarlate para examinar o roteiro oculto da sociedade em direção ao cosmos.
O projeto de Mariano Leotta e Francesco Fiore representa, portanto, uma aposta italiana que foge do óbvio — não pretende competir apenas pelo prestígio tradicional, mas por uma relevância estética e conceitual. Em tempos em que a cultura pop dialoga cada vez mais com tecnologia e ciência, experiências como esta configuram um novo tipo de patrimônio narrativo: imersivo, coletivo e profundamente reflexivo.
Enquanto Cannes segue sendo palco das disputas canônicas do cinema, a seção Immersive reforça a ideia de que o entretenimento também é campo de investigação social. Assistir a Red Planet 3009 será, para quem o vivenciar, uma ocasião para mapear o presente a partir de um futuro hipotético — e para questionar o que escolhemos levar conosco quando deixamos planetas e hábitos para trás.