Carcere-cercare: 100 jovens detentos redesenham a Scuola di Atene na Veneranda Biblioteca Ambrosiana
Projeto ‘Carcere-cercare’: 100 jovens detentos redesenham a Scuola di Atene na Veneranda Biblioteca Ambrosiana, transformando prisão em estúdio de reinvenção.
RESUMO ✦
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Carcere-cercare: 100 jovens detentos redesenham a Scuola di Atene na Veneranda Biblioteca Ambrosiana
Por Chiara Lombardi
A exposição "(Cercare) Raffaello in carcere; 100 detenuti ridisegnano la Scuola di Atene alla ricerca dei loro riferimenti" — recentemente exibida na Veneranda Biblioteca Ambrosiana — encerrou-se há poucos dias, deixando um rastro de perguntas e impressões que valem ser decodificadas. Promovida pela Fondazione Francesca Rava com o apoio da Mediobanca no âmbito do projeto “Orizzonti”, a iniciativa transforma o cárcere em estúdio e a cópia em espelho: um gesto que é, ao mesmo tempo, educativo e simbólico.
O núcleo do trabalho é uma tapeçaria coletiva de 8 x 3 metros, concebida a partir do cartone preparatório da Scuola di Atene de Raffaello, reproduzindo as mesmas dimensões do original. Realizada entre março de 2025 e março de 2026 por jovens detentos de seis Institutos Penais para menores em Milão, Bolonha, Roma e Nápoles, a obra nasceu de um percurso que mistura estudo histórico-artistico e desenho prático. Sob a orientação do artista Mattia Cavanna, os participantes substituíram os filósofos renascentistas por referências contemporâneas e pessoais: músicos, atletas, cientistas, ativistas e ícones culturais — e, não menos significativo, autorretratos.
Entre as figuras que emergem do novo painél figuram nomes como Bob Marley, Nina Simone, Amy Winehouse, Diego Armando Maradona, Nelson Mandela, Rosa Parks, Rita Levi-Montalcini e Alda Merini. Os desenhos, feitos com pastéis a cera sobre retalhos de tela costurados à mão, compõem um mosaico que é, ao mesmo tempo, tenso e generoso: uma colcha de afetos e referências que traduz a tentativa de cada autor em nomear o próprio mundo interior.
A proposta pública da ação — destacar a função educativa e social da arte ao oferecer caminhos de expressão, crescimento e inclusão — encontra, aqui, uma concretização sensível. Mas o que mais me interessa é a camada simbólica: o projeto apresenta a possibilidade de redenção praticada não como slogan, mas como técnica e disciplina. Ao trabalhar sobre a Scuola di Atene, os jovens não receberem a tarefa de emular o gênio de Raffaello; foram instados a decifrar os mecanismos da representação, a ler a obra como um roteiro de esforços humanos e a reconhecer que, por trás de um ícone, há treino, erro e reconstrução.
O curioso anagrama presente no cartaz — carcere-cercare — funciona como chave hermenêutica: buscar dentro do cárcere, buscar através do fazer artístico, buscar referências que possam orientar uma existência nova. Essa operação tem um efeito de espelho do nosso tempo: não apenas revela trajetórias pessoais em busca de sentido, mas pauta uma narrativa coletiva sobre responsabilidade social, educação e memória.
Em termos de materialidade, a escolha de pastéis sobre retalhos costurados confere à peça uma textura de arquivo íntimo, quase cinematográfica: cada fragmento de tela é um fotograma, cada traço, um corte de montagem. A tapeçaria torna-se, assim, mais que reprodução; é reescrita — um reframe da realidade que interroga quem somos quando olhamos para nossos modelos.
Ao final, o que resta é uma imagem potente: jovens em instituições penais reinventando a tradição renascentista para nomear seus próprios heróis e suas próprias feridas. Uma obra que nos lembra que a arte pode ser prática de liberdade — não no sentido imediato de portas abertas, mas como abertura interior. E nisso reside o valor: um roteiro oculto da sociedade, colocado em cena por mãos que encontraram na criação um lugar para procurar (cercare) e, talvez, reencontrar-se.