Celestino V: o cold case vaticano que persiste há 730 anos

A morte de Celestino V segue como um cold case vaticano: morte natural ou assassinato? Um olhar cultural sobre o enigma de 1296.

Celestino V: o cold case vaticano que persiste há 730 anos

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Celestino V: o cold case vaticano que persiste há 730 anos

Por Chiara Lombardi — A morte de Celestino V permanece, aos olhos da história, um verdadeiro cold case. Desde o dia 19 de maio de 1296 — data em que o antigo pontífice expirou — historiadores e curiosos tentam decifrar se seu fim foi fruto de um malore natural ou de um homicídio dissimulado. Setecentos e trinta anos depois, o enigma continua sem uma prova definitiva.

Segundo a Pontifícia Università Gregoriana, Pietro Angelerio (também escrito Angeleri) nasceu no Molise (provavelmente em Isernia ou Sant’Angelo Limosano) entre 1209 e 1215. Tornou-se sacerdote em 1239 e, no ano seguinte, retirou-se ao Monte Morrone, perto de Sulmona, na Abruzzo, transformando-se em figura eremítica e atraindo numerosos discípulos. Inspirado pela Regra de São Bento, fundou uma congregação e, após uma visão da Virgem, mandou erigir a basílica de Santa Maria di Collemaggio, concluída em 1294.

Em julho de 1294, por iniciativa do cardeal Benedetto Caetani, os cardeais surpreenderam ao eleger o asceta como papa, coroando-o na própria igreja de Collemaggio. Poucos meses depois, num gesto ainda debatido, Pietro da Morrone renunciou ao pontificado — um ato quase teatral, que abriu espaço para que Caetani ascendesse como Bonifacio VIII. A abdicação de Celestino, em dezembro de 1294, ficou conhecida como "o grande recuso" e é parte do roteiro oculto que reflete tensões profundas entre espiritualidade e poder institucional.

O desfecho, porém, foi sombrio: em 1295, movido por precauções políticas ou por medo de rivalidade, Bonifacio VIII mandou encarcerar o ex-papa no Castello di Fumone, no território do Frusinate. Lá, vivendo em condições precárias — frio, umidade e racionamento — e já com quase noventa anos e uma úlcera no peito direito, Celestino V morreu em 19 de maio de 1296. Mas foi doença e privação a causa direta, ou houve violência deliberada?

As técnicas forenses modernas exigem três elementos para reconstruir um homicídio: arma, motivo e corpo sob investigação. No caso de Celestino V, falta a arma do crime; o corpo existe, mas sua análise contemporânea é impossível; resta, portanto, o moti vo. Historiadores, como Barbara Frale, destacam que Bonifacio tinha forte interesse em manter o predecessor longe dos cenários públicos. Celestino era incômodo porque sua simples sobrevivência poderia alimentar a narrativa de que a sucessão papal era contestável.

Frale também documenta a existência de quatro dossiês — datados de 1297, 1303, 1306 e 1309 — que circulavam com a intenção de desacreditar ou explorar politicamente a figura do ex-papa. São vestígios de uma batalha sem imagens claras, um eco cultural que transforma um acontecimento biográfico em um espelho das disputas de poder da época.

Como observadora do zeitgeist, proponho ver este episódio não apenas como um mistério jurídico, mas como um símbolo: o conflito entre santidade performativa e interesses institucionais, entre a luz da devoção e as sombras do controle. A história de Celestino V é, assim, um ponto de interseção onde o roteiro oculto da política e a semiótica do sagrado se encontram — e onde o silêncio das pedras do Castello di Fumone ainda sussurra perguntas ao presente.

Sem novos vestígios, o caso seguirá sendo uma narrativa inacabada, um enigma que convida a leitura crítica sobre como a memória coletiva escolhe heróis, vilões e versões oficiais. Afinal, no grande cinema da história, algumas cenas ficam de propósito sem corte.