O centenário do voo que abriu os céus da Itália: a rota Torino-Trieste e os idrovolantes Cant 10
Há 100 anos, quatro idrovolantes Cant 10 inauguraram a primeira rota comercial Itália: Torino-Trieste, marcando a transição da aviação militar ao voo civil.
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O centenário do voo que abriu os céus da Itália: a rota Torino-Trieste e os idrovolantes Cant 10
Né rápido nos tempos, nem confortável e tampouco barato. Mas aquele voo de 1º de abril de 1926, há cem anos, abriu à Itália a via do céu para os voos civis e comerciais. A primeira linha aérea italiana ligava Torino e Trieste, apenas 23 anos após o pioneiro voo dos irmãos Wright, e representava mais que um avanço técnico: era o espelho de uma época em que a aviação transitava do teatro bélico para o roteiro do transporte civil.
Em 1926 a SISA — Società Italiana Servizi Aerei — inaugurou a rota com quatro idrovolantes Cant 10 Ter. Eles decolavam em sincronismo das duas pontas, sobrevoavam Veneza e se encontravam num ponto intermediário no rio Ticino, perto de Pavia. Para dar solenidade à cena, assistiu ao encontro o então chefe do governo, Benito Mussolini, que em 28 de março de 1923 havia separado a aviação do Exército e da Marinha, conferindo-lhe o papel autônomo da chamada “Arma azzurra”.
A história da SISA remete aos Fratelli Cosulich, armadores istrianos de Lussinpiccolo que, com raízes num império Habsburgo, haviam fundado uma grande empresa de transportes marítimos em 1854. Em 1922 transformaram-se na primeira companhia aérea de linha italiana, buscando converter uma indústria acostumada às encomendas militares — agora em declínio — para o uso civil. O Cant 10 recebia seu nome do Cantiere navale triestino, fundado pelos Cosulich em 1907 (a atual Fincantieri de Monfalcone), e que já em 1923 abrigava oficinas aeronáuticas.
Naquele momento, o idroavião tinha forte apelo: solucionava a falta de campos de pouso preparados e permitia operar em cidades costeiras e fluviais. O Cant 10 Ter, projetado por Raffaele Confienti em 1925, chegou à linha com o motor Lorraine-Dietrich 12Db de 400 cavalos. A cabine acomodava dois tripulantes (piloto e motorista/segundo piloto) e apenas quatro passageiros — numa experiência de viagem bem distante dos padrões contemporâneos.
O bilhete inaugural custou 350 lire, o que se traduz em cerca de 320 euros de hoje, embora com poder de compra muito maior então. Para atenuar os desconfortos oferecia-se aos passageiros cobertores, bolsas de água quente e até bolinhas de algodão para os ouvidos: sem pressurização, o ar gelado circulava livre, o ruído dos motores era estrondoso, e o voo ainda tinha a qualidade de um pequeno rito de passagem.
Mais que contar a chegada de uma nova tecnologia, o episódio inaugura um “reframe” social: a aviação civil começava a redesenhar fronteiras, tempos e memórias — um roteiro oculto da sociedade que, como num filme, altera os cenários e as emoções coletivas. A linha Torino-Trieste foi um primeiro ato simbólico e prático desse movimento, a pequena coreografia de quatro idrovolantes que fez do céu italiano uma nova via de comunicação.
Celebrar esse centenário é lembrar que cada inovação carrega uma economia de desejos e receios. A transição do avião de guerra ao avião de passageiros não foi apenas técnica; foi cultural: fez do voo um espelho do nosso tempo e anunciou as transformações que moldariam a mobilidade europeia nas décadas seguintes.