Cosimo Messeri volta à direção em Venezia 83 com 'Il Massacro': a paz após uma década de silêncio
Cosimo Messeri volta a dirigir em Venezia 83 com 'Il Massacro', um filme sobre insucesso, memória e a coragem de um cinema diferente.
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Cosimo Messeri volta à direção em Venezia 83 com 'Il Massacro': a paz após uma década de silêncio
Por Chiara Lombardi — Em Veneza, onde o cinema se coloca como espelho do nosso tempo, Cosimo Messeri reaparece após dez anos longe da direção com Il Massacro, apresentado nas Giornate degli Autori da Venezia 83. Não é um retorno dramático no sentido do horror: é antes um gesto de reparação, um diário coletivo em forma de filme que negocia o peso do insucesso e a busca por sentido num setor que, muitas vezes, pune a diferença.
Messeri assina roteiro, direção e atua no longa — um projeto que se inscreve numa tradição autoral mas que resiste a rótulos fáceis. O cineasta descreve estes dez anos como uma sucessão de lutos: projetos abortados, roteiros que bateram em portas cerradas, filmes que morreram no papel a um passo das filmagens. A narrativa pública se entrelaça com a íntima: “Não era um bloqueio criativo — o bloqueio estava do lado de fora”, diz ele, lembrando que a indústria tende a reproduzir fórmulas e a desconfortar quem tenta um outro cinema.
O fio condutor de Il Massacro é essa frontalidade sobre o fracasso. Messeri aponta um tabu contemporâneo: a obrigação de performar sucesso. Num tempo em que tudo precisa parecer vitória imediata, falar de perdas vira quase uma heresia. O filme, portanto, tem um caráter confessionário e coletivo — uma mise en scène que transforma o insucesso em matéria poética e política, o que o torna necessário no panorama atual do cinema italiano.
Entre os marcos biográficos que pontuam sua trajetória, Messeri recorda Metti una notte (2017), seu primeiro longa de ficção, e a sensação de ver propostas sucumbirem a obstáculos alheios ao aparato criativo. Receber o Premio al talento creativo da SIAE no Lido foi descrito por ele como “uma vampata de calor” — um reconhecimento que não apaga, porém, os anos de frustrações. Messeri cita Churchill como mantra: “O segredo do sucesso é passar de um insucesso ao outro sem perder o entusiasmo”. E confessa que, por vezes, esse entusiasmo vacilou.
Há também a memória afetiva e profissional: Veneza lhe remete a Carlo Mazzacurati, mentor e amigo, cuja ausência ainda pesa. Messeri, filho do ator Marco Messeri e ex-assistente de Nanni Moretti, traz no seu percurso essa ideia de linhagem e diálogo com a história do cinema, como se tentasse resgatar um fio interrompido e reescrevê-lo em imagens.
No pano de fundo, uma crítica pungente ao mercado: a falta de coragem para acolher vozes dissonantes. “Quando algo novo surge, todos aplaudem — mas antes ninguém o quis”, diz, lembrando dos Beatles rejeitados, ou da resistência inicial a ideias que depois se impõem. Il Massacro é, assim, uma declaração: o fracasso não é fim, é matéria-prima para recomeçar.
Assistir a Messeri em cena e ao mesmo tempo dirigir é ver o conflito e a reconciliação em ação — o cinema como espelho e como possibilidade de reframe da realidade. Em tempos que medem valor apenas pelo sucesso instantâneo, o filme propõe um roteiro oculto da persistência: celebrar a arte que insiste, mesmo quando o mundo escolhe não olhar.

