Casey Affleck em Veneza: 'Company' é a fábula gótica sobre dor, vingança e perdão
Casey Affleck apresenta 'Company' em Veneza: fábula gótica sobre dor, vingança e perdão, entre memória pessoal e conflitos globais.
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Casey Affleck em Veneza: 'Company' é a fábula gótica sobre dor, vingança e perdão
Por Chiara Lombardi — Na passarela histórica do Lido, entre holofotes e murmúrios do mercado cinematográfico, Casey Affleck reapareceu em competição na Mostra de Veneza com um gesto tão contido quanto definitivo: apresentar Company, seu drama de feição gótica que se anuncia como uma meditação sobre dor, vingança e perdão. Se o cinema é um espelho do nosso tempo, Affleck propõe aqui um reflexo que não oferece respostas prontas, mas instiga a pergunta.
O filme abre em uma noite de inverno de 1975, quando uma mulher misteriosa, Evelyn, surge sem ser convidada em uma festa e começa a narrar a história de Tom — um idoso solitário que, em 1953, resgatou uma atriz presa por uma tempestade de neve no Colorado. É um movimento em camadas: a atriz, para preencher as horas da noite, conta por sua vez uma fábula mais remota sobre um casal de camponeses que acolhe um jovem vagabundo atormentado, enquanto uma onda de crimes brutais avança pela fronteira. A estrutura em contos dentro do conto remete à tradição literária, mas também cria o efeito de um eco cultural, um reframe da realidade onde feridas pessoais e colectivas se sobrepõem.
Questionado se Company era uma reação aos conflitos globais, Affleck foi franco: “Não é um filme explicitamente político, mas não sou insensível ao mundo. Estava reagindo aos conflitos globais e também a coisas dentro de mim”. Seu gesto intelectual é típico de quem entende a arte como correspondência íntima com a história: não para solucionar, mas para problematizar. “O que fazemos com as feridas, com o sofrimento, com a injustiça? Há outras formas de metabolizar esses sentimentos?” — pergunta ele, colocando o espectador em posição ética de interrogador.
A autobiografia inevitável do artista se faz presente: com 51 anos, Affleck recordou que a última vez que esteve em Veneza tinha 41. Entre o intervalo, vieram a pandemia, um divórcio e “um milhão de coisas” que, na sua leitura, foram material criativo. “O belo de ser artista é transformar as experiências mais difíceis em trabalho. É uma bênção — e, para mim, a única maneira de compreender o que acontece na minha vida.” Há aqui um roteiro oculto da sociedade transformado em cinema pessoal.
Um dos aspectos que conferem singularidade à produção é a presença dos filhos do diretor, Atticus e Indiana, no elenco. Affleck contou, com ternura e ironia, que nenhum dos dois estava inicialmente entusiasmado, mas que, ao lerem a roteiro, foram notáveis. Trabalhar com a família tornou a filmagem uma das experiências profissionais mais intensas e íntimas de sua carreira — “faria tudo de novo”, confessou, entre risos contidos e uma melancolia elegante.
O filme é dedicado aos pais do diretor, ambos falecidos este ano, um gesto que grava Company também como um exercício de luto público e privado. No palco, Affleck foi acompanhado por um elenco que inclui Nick Nolte, Adelaide Clemens e a parceira e produtora Caylee Cowan. Ausente por motivo familiar, Ben Mendelsohn retornou aos Estados Unidos para cuidar do pai doente — um lembrete de que a vida real muitas vezes interrompe o glamour do festival.
Como observadora do zeitgeist, vejo em Company um filme que se oferece como espelho e como cenário de transformação: uma peça que não nos consola, mas nos exige. É cinema que insiste em perguntar, e é nessa insistência que encontra sua força moral e estética.

