Veneza 83: Martina Ferragamo dirige o tempo em ‘Un passo alla volta’ entre memória e futuro

Martina Ferragamo estreia em Veneza com 'Un passo alla volta', curta que mistura cinema e memória ao revisitar o legado dos Ferragamo.

Veneza 83: Martina Ferragamo dirige o tempo em ‘Un passo alla volta’ entre memória e futuro

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Veneza 83: Martina Ferragamo dirige o tempo em ‘Un passo alla volta’ entre memória e futuro

Por Chiara Lombardi — Em um gesto que mistura arquivística emocional e cinema íntimo, Martina Ferragamo estreia na Mostra de Veneza com o curta-metragem Un passo alla volta, escrito em parceria com Simone Coppo e dirigido por Coppo. Produzido pela Image Hunters e apresentado por Ferragamo, o filme é exibido no palco emblemático do Teatro La Fenice como parte da programação da Venezia 83. No elenco, dividem cena com Martina nomes como Margherita Buy, Francesco Colella e Francesco Centorame.

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O ponto de partida é aparentemente simples: uma atriz (Martina) chega a um set para filmar uma obra dedicada à sua própria família — uma família marcada pela figura tutelar de Salvatore Ferragamo (1898-1960), o célebre 'sapateiro das estrelas' de Hollywood. Mas logo o curta revela seu plano sutil: dissolver a linha que separa realidade e ficção. À medida que as filmagens avançam, lembranças emergem, o passado invade o presente, e o set transforma-se em território de confrontação entre identidade pessoal e legado histórico.

No miolo dessa peça está a escolha de Marta/atriz de interpretar a avó, Wanda Miletti Ferragamo. Não se trata apenas de um papel: é uma sobreposição de genealogia e representação, uma espécie de espelho do nosso tempo em que o familiar torna-se figura pública e vice-versa. A história de Wanda, que ao lado de Salvatore desempenhou papel essencial na continuidade da maison após a morte do marido, ganha aqui status simbólico — ela encarna a passagem de uma geração à outra e a capacidade de projetar futuro a partir de heranças materiais e afetivas.

O filme aponta para uma reflexão que vai além da anedota familiar. Ao revisitar o capítulo hollywoodiano de Salvatore — que nos anos 1920 migrou aos Estados Unidos e calçou estrelas do cinema — Un passo alla volta interroga como histórias canônicas são recolhidas, narradas e apropriadas pelas gerações subsequentes. Há uma semiótica do viral e do arquétipo aqui: o nome Ferragamo é também um prisma através do qual se lê o roteiro oculto da sociedade, as ambições, as memórias e os compromissos de classe e estilo.

Para Martina, de 28 anos e a mais jovem entre os filhos do presidente da maison, o trabalho é menos performance do que arqueologia emocional. O cinema aparece como instrumento para medir distâncias — entre o eu e o ancestral, entre o privado e o público — e, ao mesmo tempo, como tentativa de encurtá-las. O set vira cenário de transformação, onde cinema e memória se fundem num mesmo plano-sequência de significados.

Assistir a Un passo alla volta em Veneza é experimentar um pequeno reframe da narrativa familiar: o curta não celebra apenas uma dinastia ou um mito empresarial; propõe um diálogo sobre como o passado prescreve caminhos e sobre a liberdade (ou a tarefa) de ressignificá-los. É um filme que sabe ser delicado sem ser complacente, e que transforma a intimidade biográfica num espelho coletivo — assim como a melhor tradição do cinema faz quando se recusa a ser mero entretenimento.

Apresentado no contexto da Venezia 83, o curta revela-se um pequeno dispositivo crítico: uma lembrança que caminha 'um passo de cada vez' entre memória e futuro, convidando o espectador a observar o próprio reflexo e a perguntar-se quais roteiros herdamos, quais reescrevemos e quais escolhemos seguir.

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