Cover-Up: o documentário que reaviva o debate sobre o bom jornalismo

Cover-Up, na Netflix, revisita a carreira de Seymour Hersh e provoca o debate sobre ética, fontes e o que é ser um bom jornalista.

Cover-Up: o documentário que reaviva o debate sobre o bom jornalismo

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Cover-Up: o documentário que reaviva o debate sobre o bom jornalismo

Disponível na Netflix, Cover-Up é o documentário assinado pela premiada diretora Laura Poitras em parceria com Mark Obenhaus, apresentado em estreia na Mostra de Veneza 2025. No centro da narrativa está a figura polêmica e magnética do repórter investigativo americano Seymour Hersh, cujo trabalho forçou incessantes confrontos com os corredores do poder — e, no relato do filme, com a personificação desse poder em personagens como Henry Kissinger.

Hersh surge no documentário como um homem de fala acelerada e convicções firmes, filho de um judeu lituano que sobreviveu ao Holocausto — memória que, segundo ele, jamais ouviu de seu pai em conversas diretas. Essa ancestralidade, junto com a determinação quase tic de proteger suas fontes, moldou uma ética profissional que coloca a confidencialidade no centro: para Hersh, há sempre alguém no Pentágono ou na CIA disposto a sussurrar a verdade, e cabe ao jornalista ouvir.

A obra percorre três grandes investigações que consolidaram a reputação de Hersh como mestre do jornalismo investigativo. Primeiro, a revelação do massacre de My Lai (1969), que denunciou o assassinato de centenas de civis vietnamitas por soldados americanos e rendeu a Hersh o Prêmio Pulitzer em 1970. Em seguida, sua documentação do papel da CIA no golpe contra Salvador Allende no Chile, em 1973. E, já na década de 2000, sua atuação sobre o relatório conhecido como Copper Green e o escândalo de Abu Ghraib (2004), que expôs torturas praticadas em prisões iraquianas por militares dos Estados Unidos.

No entanto, o filme não evita as sombras: nas últimas décadas, as teses de Hersh dividiram a opinião pública e a própria comunidade jornalística. Seu recurso intenso a fontes anônimas e suas alegações contrárias às versões oficiais — sobre o uso de armas químicas na Síria ou sobre o alegado sabotagem do Nord Stream — viraram matéria de debate sobre limites, verificação e responsabilidade.

Cover-Up funciona como um espelho do nosso tempo. A diretora conduz o espectador por um roteiro que é tanto biografia quanto manifesto: até que ponto desconfiar da narrativa oficial é um princípio epistemológico e moral suficiente para constituir bom jornalismo? O documentário sugere que a desconfiança é necessária, mas deixa em aberto a pergunta sobre como equilibrá-la com rigor, transparência e prestação de contas.

Para estudantes e professores de comunicação, a obra tem valor pedagógico evidente: é um estudo de caso sobre a tenacidade investigativa e sobre os riscos éticos do uso de anonimato. Para o público cultural mais amplo, ela é um convite a prestar atenção às tramas ocultas que moldam a história — aquela espécie de roteiro subterrâneo que só o jornalismo, quando bem feito, pode iluminar.

Como observadora do cenário cultural, vejo em Cover-Up não apenas a biografia de um repórter provocador, mas o reflexo de uma era em que confiança, verdade e poder se confrontam num palco global. O documentário nos lembra que o jornalismo é um ofício que espelha o espírito do tempo: às vezes heróico, às vezes falível, sempre essencial.

Por Chiara Lombardi — Espresso Italia