Dimartino em solo: “Canto sozinho, a personalidade no duo se diluía, mas nunca houve briga”
Dimartino lança álbum solo 'L'improbabile piena dell'Oreto': liberdade criativa, o conceito do rio e a verdade por trás do duo com Colapesce.
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Dimartino em solo: “Canto sozinho, a personalidade no duo se diluía, mas nunca houve briga”
Por Chiara Lombardi — O cenário soa quase cinematográfico: um bar em Mislimeri, no interior de Palermo, e um desconhecido que se aproxima de Dimartino para dizer “há sempre tempo para consertar as coisas”. É uma cena que poderia ser um quadro numa película sobre reconciliações, menos a suposição pública que acompanha artistas quando mudam de configuração. Antonio Dimartino explica com calma: entre ele e Colapesce (Lorenzo Urciullo) não houve nenhum rompimento dramático, apenas uma transição criativa, e já existem projetos cinematográficos em andamento entre os dois.
Enquanto o duo ocupa a memória coletiva com hits que atravessaram o país, agora é a vez de Dimartino mergulhar de volta na escrita individual. No dia 8 de maio sai L'improbabile piena dell'Oreto, seu novo álbum solo, produzido por Roberto Cammarata. O disco nasce de um processo quase terapêutico: “foi um caminho psicológico”, confessa, onde a falta de uma voz contraposta — a proposta que vinha de um parceiro — o deixou desestabilizado, mas também livre.
O conceito do trabalho é o rio — o próprio Oreto — e Dimartino desenha o álbum como um fluxo contínuo. Cada canção termina com uma passagem instrumental que conduz a próxima, como em um roteiro bem costurado que privilegia transições e respiros. Essa escolha estética explica porque, segundo ele, “em duo a personalidade se ofusca; é preciso contar histórias universais. Sozinho, você pode investigar o íntimo, dizer coisas que talvez sentisse vergonha de dizer diante do outro”.
O primeiro single, "L'oro del fiume", funciona como uma parábola sobre renúncia: renunciar não é sinônimo de derrota, e o “ouro” não precisa ser o objetivo máximo da vida. É uma reflexão que entra em diálogo direto com os tempos contemporâneos de performance incessante — um eco cultural que Dimartino vê também em vozes públicas que convidam a deixar ir, como a de Baricco.
Apesar do sucesso coletivo — lembramos do fenômeno "Musica leggerissima" — Dimartino insiste na autonomia artística: não se trata de perseguir fórmulas para o sucesso. Ele poderia, diz, tentar escrever “hits” calibrados para rádio, mas esse não seria o seu caminho. A liberdade criativa fala mais alto, e é precisamente essa liberdade que o trouxe de volta ao palco em formato reduzido: a partir de maio, ele parte em turnê solo, apenas voz e violão, imaginando-se às vezes apenas com uma cadeira dobrável no centro do palco.
Curiosamente, a carreira solo de cada um precedeu o duo: ambos viveram longos anos individuais antes de se unir artisticamente. Por isso, a narrativa pública de uma “briga” nunca se aplica. Eles continuam colaborando em outras frentes, inclusive para cinema, e mantêm respeito e diálogo. No período do duo escreveram para nomes como Marracash, Emma e Fabri Fibra; em carreira solo, Dimartino também cultivou parcerias com Tiziano Ferro, Brunori e participou no trabalho de Sanremo de Tredici Pietro.
Como observadora — e semióloga por hábito — vejo esse movimento de volta ao solo não apenas como uma opção prática, mas como um reframe da identidade artística: um espelho do nosso tempo em que o público pede narrativa clara e, ao mesmo tempo, valoriza a intimidade. A transição de Dimartino é, portanto, mais do que uma mudança de formação: é um pequeno roteiro oculto da sociedade contemporânea, que busca a verdade por trás do brilho do ouro.