Domenico Pellegrino inaugura em Milão 'Sguardi': esculturas em cerâmica que reescrevem a memória mediterrânea
Domenico Pellegrino inaugura em Milão 'Sguardi', coleção de esculturas em cerâmica que reinterpreta a tradição siciliana no estúdio dos Navigli.
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Domenico Pellegrino inaugura em Milão 'Sguardi': esculturas em cerâmica que reescrevem a memória mediterrânea
Por Chiara Lombardi — Em 22 de abril, Domenico Pellegrino abre as portas de seu novo estúdio milanês, instalado no efervescente bairro dos Navigli. Conhecido como o “artista da luz”, Pellegrino apresenta SGUARDI, uma coleção de esculturas em cerâmica que traduz, em formas e superfícies, a tensão entre tradição e contemporaneidade — como se a memória siciliana fosse projetada no cenário urbano de Milão e revelasse camadas inéditas de sentido.
O espaço não funciona apenas como galeria: é um loft de produção e pesquisa onde o processo criativo permanece à mostra, uma espécie de set aberto em que a obra nasce diante do público. Essa escolha reafirma a visão de Pellegrino sobre a arte como dispositivo coletivo, um roteiro que envolve identidade, comunidade e espaço público. Sua prática multidisciplinar atravessa instalações luminosas, projetos de grande escala e intervenções que dialogam com o imaginário popular e a iconografia mediterrânea.
Com trabalhos em coleções institucionais e participações em eventos internacionais — entre eles a 58ª Biennale de Veneza, Manifesta 12 e o programa de Palermo Capitale Italiana della Cultura — Pellegrino opera na interseção entre mito e luz. Colaborações com marcas e universos distintos, como Disney (projetos vinculados a Star Wars), Hermès e Dior, ampliam seu repertório entre o artesanal e o site-specific. O seu projeto em Procida (Capital Italiana da Cultura 2022) tornou-se um ícone de como a arte pública pode reescrever paisagens e memórias coletivas.
Em consonância com o tema do Fuorisalone 2026, “Essere Progetto”, SGUARDI propõe um ensaio sobre a identidade como construção cultural. Recorrendo à máxima de Luigi Pirandello sobre a máscara — que o homem aceita e que o define — Pellegrino transforma faces e emblemas num vocabulário plástico. A cabeça de Batman, por exemplo, nasce de um calco de escultura monumental e é devolvida à fragilidade da cerâmica, deslocando um herói do panteão pop para uma condição humana e contraditória. Não é uma ironia; é um reframe: o mito retoma matéria e vulnerabilidade.
Ver as obras de Pellegrino é cruzar, como num quadro em movimento, a semiótica do viral com a poética do Mediterrâneo. Há nessa produção uma arquitetura de camadas — memória, ritual, iconografia — que funciona como espelho do nosso tempo. O estúdio nos Navigli pretende ser palco dessa exposição-processo: o público presencia etapas, discursos e relações entre objeto e cidade.
Para além da inauguração em 22 de abril, o projeto sinaliza um passo estratégico na carreira de Pellegrino: a escolha de Milão como terreno de confronto com uma audiência internacional e um setor criativo que dialoga com design, moda e cultura urbana. É também uma afirmação de que o trabalho artístico contemporâneo pode, e deve, ser um lugar de encontro entre o local e o global — um roteiro que reescreve a tradição sem apagá-la.
Em tempos em que a cultura popular se transforma em catálogo de símbolos recicláveis, Sguardi nos convida a olhar: para as máscaras que usamos, para as paisagens que lembramos e para a luz que modela tudo isso. Uma abertura que promete não só mostrar peças, mas ativar reflexões sobre quem somos enquanto comunidade e sobre como a arte rearticula identidades.