Elisa Bertaglia: quando a cor vira corpo metafísico na pintura contemporânea
Elisa Bertaglia: da carta à cerâmica, a pintura como corpo metafísico; técnica, residências e presença em museus internacionais.
RESUMO ✦
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Elisa Bertaglia: quando a cor vira corpo metafísico na pintura contemporânea
Elisa Bertaglia, nascida em Rovigo, desenha uma trajetória que é ao mesmo tempo técnica e invenção poética. Pintora e artista visual, ela explora materiais e superfícies com a curiosidade de quem busca um ponto de encontro entre memória e imagem — o que eu chamo de um verdadeiro espelho do nosso tempo. Participante da Bienal de Veneza em 2011, Bertaglia acumula prêmios como o Exibart Prize, Arte Laguna Prize e o Sunny Art Prize em Londres. Suas obras integram coleções permanentes importantes, incluindo o Bronx Museum, a Banca Sistema Collection e a Eileen S. Kaminsky Family Foundation, e ela realizou residências nos EUA (New York, Brooklyn, Jersey City).
Conheci a obra de Elisa Bertaglia por meio de Giulia Colussi, na inauguração do projeto "Lettera" no Palazzo Bragadin Carabba, em Veneza — uma experiência que me puxou para dentro da contemplação, como se a pintura fosse um roteiro oculto da sociedade. Perguntei a Elisa sobre a base técnica do seu trabalho; sua resposta revela um equilíbrio delicado entre experimentação e os limites do material.
Qual técnica você utiliza?
A técnica, para mim, é um campo de batalha gentil: um precário equilíbrio entre a vontade de experimentar e o comportamento físico do suporte. Trabalho sobre diferentes superfícies, mas os meus materiais de eleição desde a Accademia são a carta e a tela, onde pinto a óleo e desenho a carvão, grafite e pastéis. Na mostra "Lettera" estão apenas obras sobre papel — óleos e desenhos a carvão e grafite. O grande tríptico "Driftwood" nasceu em folhas de papel coladas sobre madeira, com amplas camadas de óleo diluído em terebentina e depois em óleo de papoula, para modular densidade, transparência e brilho. Em seguida intervenho com traço a carvão e grafite, usando lápis muito duros, da 9H à 6H.
As obras de pequeno formato são mais gestuais: viro o papel na horizontal, viro o gesto em líquido, deixo o óleo fluir até secar, e só depois introduzo o elemento narrativo e figurativo — a imagem surge por estratificação. Recentemente, experimentei a pintura sobre metal, em particular cobre e placas em ouro rosa — uma virada iniciada em 2022 com a galeria SARAHCROWN em Untitled Miami, e continuada na mostra "The Rest". Nos últimos anos, aprofundei o trabalho com cerâmica, pintando com engobes e esmaltes; fui selecionada para uma residência na Fondazione Officine Saffi, em Milão, com início previsto para janeiro de 2027.
Se a pintura de Bertaglia produz um sentido de transcendência, é porque suas camadas acionam múltiplas dimensões: atravessam figuração e abstração, convocam paisagens espirituais e corpos imprevistos. A artista não apenas pinta a superfície—ela compõe um campo relacional onde o cor torna-se corpo metafísico e o imaginário reescreve o mapa do real.
Como observadora do zeitgeist, vejo na obra de Elisa um impulso de resgate: memórias sedimentadas e imagens que se revelam como ilhas em um oceano de camadas. Sua pesquisa técnica — do óleo ao metal, do carvão à cerâmica — é também uma pesquisa de voz. Cada material pede uma forma distinta de escuta, e é nessa escuta que se articula o novo relato do mundo que sua pintura propõe.
Em breve, com a residência em Milão, esperamos ver a inquietude dessa artista encontrar novos suportes e intensidades. Enquanto isso, suas obras seguem ocupando coleções e espaços expositivos, convidando o espectador a atravessar o cenário de transformação que a pintura contemporânea anuncia.