Erri De Luca excluído do Salerno Letteratura Festival após negar genocídio em Gaza

Erri De Luca é afastado da abertura do Salerno Letteratura Festival após negar genocídio em Gaza; festival reconfigura prolusione por responsabilidade simbólica.

Erri De Luca excluído do Salerno Letteratura Festival após negar genocídio em Gaza

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Erri De Luca excluído do Salerno Letteratura Festival após negar genocídio em Gaza

Por Chiara Lombardi — A recente decisão do Salerno Letteratura Festival de retirar a responsabilidade da prolusione do escritor Erri De Luca expõe um atrito clássico entre a liberdade da palavra e a responsabilidade simbólica do intelectual. A polêmica teve como gatilho declarações do autor, em que afirmou ser sionista e negou a ocorrência de um genocídio em Gaza, frases que rapidamente reacenderam debate público e institucional.

Inicialmente convidado para proferir a prolusione — o discurso inaugural que, como sinaliza a tradição dos festivais literários, define o refrão temático da edição — Erri De Luca viu sua participação ser revista após a repercussão de suas palavras. Segundo Gennaro Carillo, co-diretor artístico do festival, a prolusione “implica uma certa identidade di vedute com chi te la commissiona, quanto meno rispetto alla più tragica delle evidenze: i morti civili di Gaza”. Em português: a abertura do festival não podia ser colocada nas mãos de alguém cujas posições soassem em dissonância com a evidência humana das vítimas civis.

Carillo explicou ainda que a organização não optou por uma censura total: De Luca foi convidado a participar em outra seção do festival, mas teria declinado a alternativa, repetindo que “è il festival che si è escluso da me” — uma tentativa de minimizar o efeito do episódio, transformando-o em recusa mútua.

Das declarações do próprio autor, fica claro um esforço de nuance: “So benissimo cosa sia un genocidio, applicarlo alla guerra di Gaza è una distorsione storica e verbale. Ciò che è accaduto a Gaza è una guerra brutale e moderna…”, afirmando ainda sua posição como sionista. Em seguida, De Luca tentou um recuo, dizendo que não quis ofender aqueles que apoiam a causa palestina — um gesto comunicativo que, no entanto, não apagou o estrago simbólico provocado pelas primeiras palavras.

Como analista cultural, vejo esse episódio como um espelho do nosso tempo: a arena pública contemporânea exige que a voz do intelectual não seja apenas eloquente, mas também reconheça o peso das leituras históricas e humanitárias. A prolusione é mais que um texto de abertura; é um roteiro público que antecipa o tom do festival. Nesse sentido, o festival atuou sob a lógica de preservar seu “mapa ético” diante de uma evidência humanitária incontornável — as vítimas civis, sobretudo crianças, citadas por Carillo como “la strage silenziosa”.

O caso também ilustra a tensão entre autonomia artística e responsabilidade social: um autor pode discordar das interpretações dominantes, mas, ao ocupar um pódio inaugural, suas palavras reverberam como legenda do encontro coletivo. A cultura, aqui, funciona como camada semiótica: cada intervenção pública reescreve, ainda que temporariamente, a narrativa coletiva — e o festival, ao escolher quem abre o debate, decide também qual eco cultural pretende semear.

O desenlace prático é simples: Erri De Luca não fará a prolusione em Salerno; o festival reconfigurou a abertura em diálogo entre os diretores artísticos, preservando, na intenção, uma linha editorial que reconhece a gravidade das perdas humanas em Gaza. Resta a lição — para autores, curadores e público — de que a palavra pública é sempre, também, um ato de responsabilidade.