Eurovision: as notas da 2ª semifinal — Bulgária em alta, Chipre amarga crítica e Luxemburgo surpreende
Notas e análise da 2ª semifinal do Eurovision: destaques, surpresas e o significado cultural por trás das performances.
RESUMO ✦
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Eurovision: as notas da 2ª semifinal — Bulgária em alta, Chipre amarga crítica e Luxemburgo surpreende
Por Chiara Lombardi — A segunda semifinal do Eurovision funcionou como um espelho de tendências: há quem busque o choque de palco, quem prefira a sutileza melódica e quem insista em fórmulas que já conhecemos. Aqui, as minhas notas e interpretações, pensadas como quem analisa um filme que reflete uma época.
Bulgária — Dara — “Bangaranga” — 7,5
Um balcan urban com sonoridade carnavalesca que, apesar do fio lúdico, tem potencial de hit. A palavra Bangaranga (em patois jamaicano, conotando caos e revolta) é reinterpretada por Dara como o instante em que você “escolhe o amor em vez do medo”. Em cena, o refrão funciona como um refrão-pop que cola: uma canção pensada para girar na memória do público como uma atração de parque — ruidosa, contagiante e irresistível.
Azerbaijão — Jiva — “Just Go” — 4,5
Uma balada clássica ao piano e cordas que escolhe o drama formal. A mecânica é conhecida: a narrativa do adeus ("just go") ganha corpo na ação física da cantora, que se solta dos laços que prendem seus pulsos e caminha pela passarela. Honesta, mas previsível — e por isso pouco ressonante num palco que pede invenção.
Romênia — Alexandra Căpitănescu — “Choke Me” — 5
O título pode sugerir o erótico, mas a proposta é outra: é a luta interior, a sensação de sufocamento. No palco, a cantora veste preto e é amarrada a instrumentos por cabos de LED, enquanto um alter ego em branco contrapõe a cena. Um rock emo-metal com pinceladas operísticas na voz, que às vezes se perde no excesso de dramatização.
Luxemburgo — Eva Marija — “Mother Nature” — 7
Um indie pop elegante e bem escrito que, paradoxalmente, pode pagar o preço da sua própria refinaria: soa sofisticado demais para o trânsito do ESC. Com figurino que evoca a Mãe Natureza e um final em que ela toca violino, a canção fica como uma jóia discreta num palco de efeitos maiores.
República Tcheca — Daniel Zizka — “Crossroads” — 6
Voz intensa, interpretação melodramática — Daniel entrega qualidade vocal, mas a composição não alcança o mesmo nível épico. Faltou aquela canção que se sustenta sozinha, fora do gesto performático.
França — Monroe — “Regarde!” — 6
A tentativa de popificar a lírica segue em evidência no Eurovision e costuma dar certo. Monroe desliza para o terreno do musical, o que dilui o impacto pop e transforma a apresentação em algo mais teatral do que radiofônico.
Armênia — Simón — “Paloma Rumba” — 5
Uma jaqueta coberta de post-its e a vontade de fuga do escritório são o ponto de partida. A ideia visual é boa, mas a canção mistura metálicas alusões ao folk com base eletrônica de maneira pouco coesa.
Suíça — Veronica Fusaro — “Alice” — 6
Um rock ternário que aborda a violência de gênero sob a perspectiva do agressor, simbolizado por uma gaiola de cordas vermelhas no palco. Veronica começa hesitante, mas encontra o caminho quando a música exige entrega — um número que cresce na execução.
Chipre — Antigoni — “Jalla” — 4
Essência mediterrânea, batidas urbanas e um tempero turístico que, infelizmente, não funcionaram. A performance vocal de Antigoni — conhecida por participações em reality shows — foi desconfortável: chegou a ferir os ouvidos em momentos-chave.
Áustria — Cosmó — “Tanzschein” — 5
A interação com as projeções LED na abertura é uma das ideias mais inventivas desta edição. A criatividade visual existe; a canção, menos. Nem toda aposta audiovisual salva uma composição que fica morna.
Letônia — Atvara — “Ēnā” — 6
Uma balada que, quando pede força, exige mais de Atvara. Nos trechos sem armadilhas, ela flui; nos momentos de empurrar a canção, falta potência. Ainda assim, há autenticidade na proposta.
Em suma, a segunda semifinal do Eurovision mostrou uma costura entre o imediatismo do hit e a tentativa de discurso artístico — um reflexo do nosso tempo, onde a estética precisa dialogar tanto com o algoritmo quanto com a memória coletiva. A Bulgária aposta no contagioso; Luxemburgo escolhe a sofisticação; Chipre, infelizmente, tropeça na execução. O roteiro oculto da noite continua sendo a busca por equilíbrio entre espetáculo e veracidade.