O falso mito do 'especialista': como a tecnocracia transforma autoridade em mindfucking de massa
Pietro Cattana desmonta o mito do especialista e analisa como a tecnocracia transforma autoridade em controle cultural e massa.
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O falso mito do 'especialista': como a tecnocracia transforma autoridade em mindfucking de massa
Por Chiara Lombardi — 05 de junho de 2026
Pietro Cattana (Milão, 1995), filósofo formado com louvor na Universidade de Pavia, vem assinando ensaios que já reverberam no debate público italiano. Autor de Nel velo virtuale – l’esistenza ai tempi della società dello spettacolo (Arca, 2025) e de Odio l’esperto – contro il sacerdote della tecnocrazia (Arca, 2026), Cattana volta a provocar: seu próximo livro tratará da figura do robô. Em conversa que mistura diagnóstico cultural e aforismo, ele desconstrói o que chama de falso mito do experto e revela por que essa figura virou técnica de mindfucking de massa.
Chiara Lombardi: Pietro, seu último livro tem um tom inquietante e ao mesmo tempo clínico. Você afirma que existe uma ideologia do experto nos meios e nas relações sociais. O que exatamente significa isso?
Pietro Cattana: Primeiro, convém definir a palavra. Quando falo de experto, refiro-me à figura midiática convocada a narrar a emergência do momento com autoridade e credibilidade. Num nível mais amplo, falo também do competente sobre o qual nossa sociedade se apóia: para cada problema — do mais grave à unha encravada — existe um especialista a quem delegamos decisões. É uma cultura da delegação sistemática: penso como me orienta o psicólogo, voto segundo o discurso do político, como conforme o nutricionista ou o algoritmo me instrui. Esse indivíduo que se abandona à voz do especialista perde um núcleo autêntico de si — seu eu se torna um mosaico de pensamentos e modos de outrem, repetidos acrítica e mecanicamente.
Cattana desloca a crítica do pessoal para o estrutural: a proliferação de especialistas em conflito de interesse e sem escrúpulos denuncia a degeneração do discurso científico que, a seu ver, se converteu em um blasonato flatus vocis com finalidades niilistas. “Quanto mais problemas, mais especialistas: paradoxo da tecnocracia”, ele observa. Se um técnico quer prosperar, precisa aumentar, cronicizar ou manufaturar problemas. O melhor terapeuta, conclui, seria aquele de que não se depende mais.
Chiara Lombardi: Há aqui uma leitura quase heideggeriana: somos o Si na sociedade técnica?
Pietro Cattana: Exato. Somos Si heideggeriano empenhado em produzir sem horizonte. A tecnocracia configura uma espécie de psiquiatria de massa: nos tornamos consumidores permanentes de figuras de cuidado porque perdemos referências coletivas e horizontes de sentido. Produzimos para produzir — e a produção perdeu um fim que não seja o acréscimo quantitativo do capital. É a eficiência pela eficiência, que cria uma obsessão por resultados desconectados de propósito.
No diagnóstico de Cattana há também um traço geopolítico e simbólico: “A tentativa de substituir Deus por ciência e técnica falhou; há um vagar por vazio de sentido e, curiosamente, a luz simbólica parece deslocar-se para o Oriente.” Palavras que soam como um plano de fundo histórico: o que vemos nas telas e nas manchetes é também espelho de uma perda coletiva, um roteiro oculto que a cultura pop apenas reflete.
Chiara Lombardi: E qual o papel dos meios de comunicação nesse mecanismo?
Pietro Cattana: Os meios amplificam a figura do experto enquanto selo de autoridade. A mídia transforma a especialização num espetáculo — a sociedade do espetáculo ao pé da letra — e a plateia confere veracidade pela exposição repetida. É nessa encenação que se pratica o mindfucking de massa: a autoridade transformada em performance converte dúvidas legítimas em resignação.
Para Cattana, a saída exige dois movimentos: reconquistar uma ética da autonomia e repensar a autoridade técnica. Não se trata de rejeitar o conhecimento, mas de recusar a entregue acrítica ao especialista como sacerdote. É preciso restituir ao público a capacidade de julgar e contextualizar, numa espécie de reframe social que devolva sentido às ações coletivas.
Como quem assiste a um filme marcante, o leitor é convidado a olhar para além da narrativa aparente e ver o cenário de transformação que a tecnologia e a mídia desenham. O problema do especialista é menos técnico do que simbólico: ele informa sobre quem nos tornamos enquanto comunidade.
Publicada originalmente em entrevista para Il Giornale d'Italia.