Francesco Vaccarone em Roma (1970–1976): O período decisivo em exibição no Palazzo Merulana

Exposição 'Francesco Vaccarone a Roma 1970-1976' no Palazzo Merulana reconstrói anos decisivos do artista entre pintura, gravura e escultura.

Francesco Vaccarone em Roma (1970–1976): O período decisivo em exibição no Palazzo Merulana

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Francesco Vaccarone em Roma (1970–1976): O período decisivo em exibição no Palazzo Merulana

Por Chiara Lombardi — Há exposições que funcionam como espelhos do nosso tempo; outras, como lentes que revelam a origem de um olhar. É este o duplo efeito que produz a mostra Francesco Vaccarone a Roma 1970-1976, em cartaz no Palazzo Merulana até 3 de maio de 2026. Curada por Umberto Croppi e Paolo Asti, e promovida pela família do artista em parceria com a associação cultural Startè, a exposição reconstrói uma fase crucial da trajetória do pintor e gravador nascido em La Spezia (1940) e falecido em 2024.

Ao reunir pintura, gravura e escultura, a mostra propõe um reframe da realidade artística daquele momento — a transição entre o fim do boom econômico e o advento dos anos de contestação. Nesse cenário, Vaccarone não foi apenas um criador de objetos: ele encarnou um modo de vida. Como observa Paolo Asti, o período romano consolidou nele a ideia de que a arte é antes de tudo uma prática, uma forma de estar no mundo, e não apenas um produto final. Essa afirmação funciona como uma pequena cartela de leitura para o público que atravessa as salas do Palazzo.

O percurso expositivo privilegia precisamente esse movimento — o de um artista em diálogo constante com o espaço urbano, a memória e a figura. Das primeiras experiências surgem as Mitofanie, trabalhos que apontam para uma capacidade precoce de extrair visões a partir dos materiais; há também um assemblage que testemunha o encontro com a poesia visual. Obras em transição, como Adamo, Ermafrodito, Pescatore e Mosca cieca, sinalizam o caminho para as soluções formais posteriores, em que o traço incisivo de Vaccarone mapeia relações entre figura e espaço — um diálogo que parece gravar na tela as camadas visíveis e invisíveis da cidade.

É em Roma, cidade-semiótica e palimpsesto constante, que Vaccarone frequentou a histórica Stamperia Il Cigno, um verdadeiro cruzamento de gerações onde passaram nomes essenciais como Burri, Capogrossi, Afro, Marini, Gentilini, Guttuso e Fieschi. Nesse ambiente, o artista ligure encontrou tanto interlocução quanto tensão crítica, tornando-se uma referência atuante na cena da Scuola Romana. O que a curadoria oferece ao visitante é justamente esse mosaico de encontros: não só obras, mas ecos e ressonâncias que ajudam a situar Vaccarone no mapa cultural do segundo Novecento.

Mais do que um tributo póstumo, a mostra pretende preencher uma lacuna historiográfica: ao concentrar-se nos anos romanos, ela apresenta um microcosmo que ilumina aspectos decisivos do século passado. É um convite a reavaliar como os contextos — institucionais, afetivos, intelectuais — moldam a prática artística. E, como em um bom roteiro, as sequências expostas funcionam como cenas que, juntas, revelam o caráter e a coerência de uma poética.

Visitar Francesco Vaccarone a Roma 1970-1976 é, portanto, aproximar-se de uma biografia artística que nos obriga a perguntar: de que maneira a cidade nos transforma e de que modo o artista traduz essa transformação em signos? A resposta, como toda grande semiótica do viral cultural, exige atenção — e a mostra no Palazzo Merulana oferece o cenário ideal para essa contemplação crítica.