Fulminacci: 'Calcinacci', o disco que renasceu entre as ruínas de um amor
Fulminacci lança 'Calcinacci', álbum nascido das ruínas de um amor; do Sanremo ao tour nos palazzetti, entre cinema íntimo e escolhas estéticas.
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Fulminacci: 'Calcinacci', o disco que renasceu entre as ruínas de um amor
Por Chiara Lombardi — O novo álbum de Fulminacci, lançado na sexta-feira 13 de março com o título Calcinacci, surge como um verdadeiro exercício de reconstrução. Filippo Uttinacci, 28 anos, conhecido artisticamente como Fulminacci, transformou as 'macerie' de uma relação importante em música — e em cinema: o lançamento vem acompanhado de um curta‑metragem que o tem como protagonista.
Da participação no Festival de Sanremo, onde levou a canção Stupida sfortuna e conquistou o sétimo lugar além do prêmio da crítica, sai um artista que se diz satisfeito e surpreso. 'Sei arrivato settimo, ma mi sembra di avere vinto', declarou num tom que mistura alívio e vitória íntima. É essa sensação — a de ter 'ganhado' algo pessoal — que orienta o espírito do disco.
As 'ruínas' que deram origem ao álbum são as de uma história de amor longa e relevante que acabou. Apesar da intimidade do tema, Fulminacci assume a responsabilidade pela ruptura: 'Diciamo che mi prendo io la colpa', conta com calma, reforçando que a separação não foi atravessada por rancor, mas por afeto. O resultado é um texto artístico que funciona como terapia: 'Scrivendo il disco ho forse ricostruito qualcosa', admite.
Além do relato pessoal, há escolhas estéticas e públicas que merecem atenção. O dueto em 'Parole parole' com a apresentadora Francesca Fagnani foi pensado como um gesto de elegância — uma aposta que poderia ser considerada 'noiosa' ao público, mas que para ele era coerente. 'Non sono uno stratega nella vita, non ho furbizia. Ho giocato il mio gioco', disse, recusando a lógica calculista do mainstream.
Essa distância em relação às dinâmicas comerciais do universo pop é parte do roteiro oculto que define sua trajetória: não por moralismo, mas por desconhecimento e escolha. O objetivo confessado é simples e firme — continuar a fazer o que faz agora, até o fim.
O álbum vem acompanhado de um projeto ao vivo: a turnê em abril pelos palazzetti terá uma proposta analógica, inspirada nos concertos dos anos 70, baseada apenas em luzes e interpretação. Sobre o uso de celulares nas plateias, Fulminacci adota um pragmatismo libertário: 'Se perdi alguma cosa bella perché guardavi il telefono, cavoli tuoi'. Uma observação que diz muito sobre o tempo em que vivemos, entre presença e distração.
Mais do que a crônica de uma separação, Calcinacci funciona como um espelho do nosso tempo: uma obra que reconstrói, refrata e devolve afetos em forma de canção e imagem. É o cinema íntimo de um cantor que não se limita ao palco, mas procura entender o que a ruína deixou de legado — e como, a partir dela, montar de novo um outro cenário de transformação.
Em síntese, o disco de Fulminacci é um exercício de memória sentimental e tradução estética, um pequeno tratado sobre como a arte pode ser terapia e espelho social ao mesmo tempo.


