A sinceridade de Gino Paoli: “Para mim é fundamental ser verdadeiro, autêntico, dizer a verdade, ser honesto”

Entrevista de 1978 revela a **sinceridade** de Gino Paoli: autenticidade, palco e a busca pela verdade no recital Il mio mestiere.

A sinceridade de Gino Paoli: “Para mim é fundamental ser verdadeiro, autêntico, dizer a verdade, ser honesto”

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A sinceridade de Gino Paoli: “Para mim é fundamental ser verdadeiro, autêntico, dizer a verdade, ser honesto”

Por Chiara Lombardi — relembrando a entrevista de Carmelo Strano (1978)

Em 1978, no número 13 da revista Rete, o jornalista Carmelo Strano publicou uma entrevista que virou espelho de uma época e de uma intimidade artística: o encontro com Gino Paoli, então com 42 anos, por ocasião do recital Il mio mestiere no Salone Pier Lombardo, em Milão. Retomo aqui esse diálogo porque ele não é apenas memória: é um roteiro oculto que nos permite ler o que a sinceridade faz com a música e com o público.

No texto original — intitulado à época “Mai più primavera”, em alusão à sua tentativa de suicídio num tórrido julho de 1963 — Paoli se revelou com uma franqueza cortante. Era segunda-feira; o teatro, que deveria abrigar a peça Il giardino dei ciliegi de Anton Cechov, foi cedido a quatro cantautores para um recital. Um episódio curioso marca o começo: o salão aparece inicialmente vazio, até que uma multidão inesperada irrompe — não exatamente a plateia compradora, mas manifestantes que fugiam da repressão. A anedota, contada também por Bruno Lauzi no seu futuro livro Cantautore di insuccesso, coloca Paoli no centro de uma cena que mistura política, espetáculo e acaso.

Naquelas noites no Pier Lombardo, o público deu sinal de que algo havia mudado: o recital registrou tudo esaurido por três noites consecutivas. Paoli transformou a ideia do show numa espécie de instalação teatral — não por esnobismo, mas por necessidade expressiva. No palco, objetos simples tornam-se signos: um bidone onde ele despeja roupas e miudezas (um gesto que dialoga com a letra de Sipario: “sou quem deixa as ideias no guarda-roupa, para poder ficar, já nu, diante das luzes”), um mannequin com quem estabelece um diálogo quase romântico, e luzes trabalhadas como pinceladas num quadro vazio.

Paoli dizia: “O teatro é como um quadro vazio — é amor por um quadro vazio onde cada um coloca sua ação física. Teatro significa disponibilidade, e eu tenho muita; aliás, minha disponibilidade é total.” Essa afirmação, dita com a habitual combinação de lucidez e timidez, desvela o princípio ética do seu ofício: a sinceridade como matéria-prima. Ele definia a si mesmo como humilde diante do novo, pronto a se expor sem máscaras.

O recital tomava o título do álbum duplo de 18 canções (edições Durium) que sintetizava uma fase em que Paoli estava mais aberto, mais pascaliano na sua inquietude artística: a música como confessionário público, a canção como gesto de verdade. O que surpreende ao reler a entrevista é o modo com que a voz de Paoli se mantém contemporânea: não se trata apenas de biografia, mas de uma ética performativa que interpela o artista e o espectador — a promessa de honestidade no palco.

Como analista cultural, vejo nesse episódio o que chamo de um pequeno reframe da realidade: o recital não é mera nostalgia, mas um eco cultural que nos convida a pensar a relação entre trauma, arte e autenticidade. A tentativa de suicídio de 1963, mencionada no título original, não é explorada como sensationalismo; ela funciona como uma cicatriz que ilumina a seriedade do gesto artístico. Há, nas falas de Paoli, uma precisão quase clínica sobre o que significa ser-se verdadeiro diante das luzes.

O sucesso do espetáculo — e a recetividade inesperada do público — revelam ainda outro dado importante: a canção de autor, mesmo quando parece íntima e introvertida, é um espelho do tempo. Paoli não se prestou a transformar dor em espetáculo de ocasião; preferiu, com sua humildade e rigor, transformar a verdade em canto. Essa é, talvez, a lição que continua válida hoje: a autenticidade não é moda, é disciplina.

Rever essa entrevista é reconhecer que certos artistas trabalham como cineastas da alma: compõem enquadramentos, ajustam luzes, pedem silêncio e esperam que o público aceite a oferta — ser tocado pela verdade. Em tempos em que a performatividade frequentemente suplantou a veracidade, as palavras de Gino Paoli soam como um convite raro e necessário: a música pode ser um espelho do nosso tempo se quem canta decidir, antes de tudo, ser honesto.

Ficha: entrevista publicada originalmente em Rete (n.13), 1978. Local do recital: Salone Pier Lombardo, Milão. Álbum relacionado: Il mio mestiere — Durium.