Giucas Casella: do poço da infância à telepatia, o mentalista que transformou perigo em espetáculo

Giucas Casella conta como a telepatia com a mãe sordomuda moldou sua carreira: fachiro, hipnose, seis minutos sob água e 3.000 Barbies.

Giucas Casella: do poço da infância à telepatia, o mentalista que transformou perigo em espetáculo

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Giucas Casella: do poço da infância à telepatia, o mentalista que transformou perigo em espetáculo

Por Chiara Lombardi — Em uma carreira que lembra um roteiro barroco entre ilusão e memória, Giucas Casella reafirma: não é apenas um jogador de cena, é um mentalista que construiu um ofício fundido com lembranças de infância e rituais públicos. Em entrevista franca, ele revive episódios que parecem saídos de um filme de época — o menino que comunicava-se com a mãe sordomuda por gestos e uma intuição que hoje ele define como telepatia, o menino que caiu em um poço aos seis anos e sentiu, em silêncio, a presença materna capaz de salvá-lo.

Essa narrativa pessoal é o motor do seu trabalho: não o truque barato, mas a criação de emoções. Casella insiste no rótulo que prefere: mentalista, não charlatão. E lembra as disputas televisivas que marcaram a Itália dos estúdios, quando Gabriella Carlucci o acusava de charlatanismo e a rivalidade entre canais era quase uma cena repetida de um drama serial. Ainda assim, foi o humor de Gigi Sabani — com a imitação e o bordão “solo quando lo dico io” — que ajudou a consolidar sua figura no imaginário popular.

O percurso artístico de Casella tem cenas extremas: começou como fachiro em cruzeiros, engolindo lâminas — truques de risco que falam do corpo como fronteira entre espetáculo e perigo. Lembra também o número que considera o mais arriscado: seis minutos debaixo d’água, um intervalo em que pensou verdadeiramente que poderia morrer. É ali, no limiar entre o controle e o descontrole, que suas performances espelham algo mais amplo: o público procura nesses gestos um espelho do nosso tempo, uma confirmação de que há ainda mistério quando tudo parece explicável.

A primeira hipnose surgiu, curiosamente, com uma víbora que se imobilizou diante do seu gesto; depois vieram galinhas, coelhos, sapos. Em escola, eram os colegas que se tornavam plateia de seus pequenos atos; os pais, temerosos, chegaram a pedir exorcismo. Foi então que o padre Don Sarullo, de Termini Imerese, validou o dom e batizou o nome artístico: Giucas, junção das primeiras letras de Giuseppe Casella.

O salto para a visibilidade veio de um adeus em Roma, um número no Bagaglino que foi visto pela secretária de Pippo Baudo. Em cinco minutos no palco de Antenna Sicilia, Baudo se convenceu e levou-o a Domenica In, abrindo-lhe as portas da televisão nacional. Mais tarde, Mara Venier o reconduziu ao papel público, dando-lhe uma segunda consagração.

Além da performance e do risco, há curiosidades que humanizam o artista: Casella se orgulha das suas três mil Barbie, coleção que revela uma outra faceta — a do colecionador que arquiva memórias e identidades. É um detalhe que mostra como o espetáculo é também arquivo afetivo.

Como analista cultural, vejo em Casella uma figura que encarna o roteiro oculto da sociedade: o fascínio pelo inexplicável, a celebração do risco e a necessidade de mitos contemporâneos. Seu percurso atravessa programas, controvérsias e imitações: é o eco cultural de uma Itália que, entre a tradição e a televisão, ainda busca sinais do extraordinário. E nesse palco grande que é a cultura pop, Casella permanece — provocador e ambíguo — lembrando que o entretenimento nunca é apenas distração, é também espelho e narrativa.