Ministro Alessandro Giuli diz não à Biennale di Venezia: ausência marcada na pré‑abertura e inauguração

O ministro Alessandro Giuli não participará da pré‑abertura nem da inauguração da Biennale di Venezia, em protesto ao retorno do pavilhão russo.

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Ministro Alessandro Giuli diz não à Biennale di Venezia: ausência marcada na pré‑abertura e inauguração

Por Chiara Lombardi — Em um gesto que reverbera como um pequeno terremoto no circuito cultural europeu, o Ministério da Cultura italiano anunciou que o ministro Alessandro Giuli não estará presente na pré‑abertura (6-8 de maio) nem na cerimônia de inauguração (9 de maio) da 61ª Esposizione d'Arte della Biennale di Venezia. A decisão, oficializada nos últimos dias de abril, não é apenas um ato protocolar: é um espelho do nosso tempo, um sinal de distanciamento institucional em meio a debates geopolíticos.

A ausência do titular do MiC ganha contornos políticos e simbólicos se lida à luz dos recentes acontecimentos que envolveram o retorno da Rússia ao circuito da Biennale. No ano passado, o comportamento foi diferente: o então ministro Gennaro Sangiuliano esteve presente às reuniões institucionais do segmento inaugural. Agora, Giuli opta por outro roteiro — uma recusa que, para além do gesto, interroga a relação entre arte, memória e responsabilidade estatal.

Em março, o ministro já havia se distanciado das escolhas do presidente da Biennale, Pietrangelo Buttafuoco, com quem tem histórico de colaboração no jornal Il Foglio. Posteriormente, pediu a documentação relativa à presença russa para avaliar eventuais violações das sanções impostas a Moscou por causa da guerra na Ucrânia. Foi um movimento que traduz a busca por um enquadramento legal e ético diante de uma decisão institucional controversa.

Contexto: a Rússia esteve ausente da Biennale desde a invasão da Ucrânia. Em 2022, os artistas Alexandra Sukhareva e Kirill Savchenkov fecharam o espaço expositivo, qualificando o conflito como "insuportável"; em 2024, o país chegou a ceder seu pavilhão à Bolívia. Neste ano, regressa com um pavilhão que reúne cerca de 50 artistas, músicos, poetas e filósofos. Curiosamente, o padiglione russo ficará acessível apenas na preview de imprensa entre 6 e 8 de maio, quando apresentará a performance 'The Tree is Rooted in the Sky', registrada e transmitida nos telões visíveis dos Giardini. Do dia 9 de maio até o encerramento, em 22 de novembro, o pavilhão ficará inacessível ao público.

As repercussões foram imediatas: a União Europeia ameaçou suspender um financiamento de 2 milhões de euros destinado a projetos cinematográficos da Biennale. Paralelamente, a Giuria internazionale da Biennale anunciou que excluirá a Rússia e Israel dos prêmios, uma decisão que mistura sanção simbólica e tentativa de preservar a legitimidade das premiações.

No front político interno, as reações foram divididas. O Partido Democrático elogiou a escolha de Giuli: o senador Filippo Sensi qualificou a ausência como "metade do dever" cumprido, responsabilizando o ministro pela outra metade — evitar o que chamou de "escândalo" do pavilhão reaberto sobre o sangue dos ucranianos. Já o Movimento 5 Stelle criticou fortemente a decisão: o líder do grupo no Senado, Luca Pirondini, acusou Giuli de ceder a "diktats de Bruxelas" e a pressões governamentais, em vez de cumprir plenamente sua função.

Horas antes do anúncio, uma delegação do M5S reuniu‑se em Veneza com Buttafuoco para reiterar o apoio à autonomia da Biennale, discurso que ecoa a antiga tensão entre independência artística e intervenções políticas. O episódio desenha um cenário de transformação: a Biennale continua sendo um palco — e um espelho — onde se entrelaçam estética, memória e as narrativas geopolíticas que definem nosso presente.

Como analista cultural, vejo nessa retirada um reframing da função do poder cultural: não se trata apenas de estar onde se celebra a arte, mas de como o Estado escolhe posicionar‑se diante do roteiro oculto da sociedade. A ausência de Giuli é, portanto, tanto um gesto diplomático quanto uma declaração de princípios, que converterá a inauguração em uma cena ainda mais carregada de significado.