Gustavo Dudamel leva esperança ao San Carlo: espetáculo com Marina Abramović e reflexões sobre o Venezuela
Gustavo Dudamel estreia no San Carlo com Marina Abramović, une música e esperança e comenta a situação do Venezuela e o papel social de El Sistema.
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Gustavo Dudamel leva esperança ao San Carlo: espetáculo com Marina Abramović e reflexões sobre o Venezuela
«Queremos falar dessa bela loucura?». Com esse convite que mistura camaradagem e provocação, Gustavo Dudamel desembarca pela primeira vez no Teatro San Carlo, em Nápoles, para um concerto-performance que promete ser tanto íntimo quanto expansivo. Em meio ao clima tenso provocado pela investigação sobre a gestão anterior do teatro, Dudamel dirige hoje e amanhã uma proposta compartilhada com a artista conceitual Marina Abramović.
O programa reúne duas peças escritas na época da Primeira Guerra Mundial: L’Histoire du soldat, de Stravinsky, e El amor brujo, de Manuel de Falla. «São obras com cheiro de enxofre, demônios e feitiçaria — histórias marcadas pelo sobrenatural», descreve o maestro. Graças às imagens e à visão vanguardista de Abramović, a apresentação cria «um novo idioma audiovisual» que coloca em cena o que Dudamel chama de «transformação», um lugar onde destino e livre-arbítrio se entrelaçam.
O espetáculo, segundo ele, é «muito pessoal, ao mesmo tempo íntimo e passional, com uma alma metafísica e realista». Essa tensão entre o visível e o invisível — a semiótica da performance — funciona como um espelho do nosso tempo: a arte como espaço para repensar identidades e reencenar memórias coletivas.
Ao conectar esse roteiro estético com sua biografia, Dudamel inevitavelmente volta o olhar para o Venezuela. Perguntado sobre a situação após a captura de Maduro, ele pondera: «É muito complexa, como em outras regiões do mundo. O desfecho é incerto; parece que um novo ordenamento foi posto em movimento e estamos tentando entendê-lo». O maestro, que vive fora por causa de sua função na New York Philharmonic, mantém familiares no país. «As pessoas estão cansadas das diatribes políticas e querem esperança e normalidade», resume. «Vemos anos de pobreza e violência — as demandas por uma vida digna são primárias».
A voz pública de Dudamel ganhou força num episódio concreto: a morte do jovem músico Armando Canizales, um integrante das orquestras surgidas do movimento social e musical El Sistema, que foi assassinado em Caracas enquanto protestava contra repressões. «Quando isso aconteceu, senti a urgência de intervir», lembra. Para ele, a música deixou de ser apenas estética para se tornar missão e resgate social.
El Sistema, fundado por José Antonio Abreu há 51 anos, continua ativo e permanece, por lei, vinculado ao governo. Claudio Abbado e Daniel Barenboim participaram e gravaram presença nessa genealogia que foi decisiva para Dudamel: «Abreu, Barenboim e Abbado foram minhas referências, quase três pais. A música como instrumento de transformação social — há algo de profundamente belo nisso».
Mesmo em marés turbulentas, o maestro insiste na capacidade da arte de gerar empatia e pontes: líderes políticos, diz ele, devem possuir empatia e estar dispostos a encontrar-se nas diferenças. Nessa fala, a performance no San Carlo vira cena simbólica: dois artistas de mundos distintos — o maestro venezuelano e a performer sérvia — construindo um diálogo que questiona e cura. É o roteiro oculto da sociedade apresentado no palco, um pequeno e urgente reframe da realidade.
O concerto em Nápoles surge, portanto, como mais do que um acontecimento musical: é um cenário de transformação, um convite à esperança — e uma lembrança de que, mesmo em tempos de incerteza política, a arte continua a oferecer um mapa para imaginar o novo.