Hungria: necrópole de 3.500 anos em Bükkábrány revela tumbas, joias em ouro e rituais do Bronze Médio

Em Bükkábrány (Hungria), escavação preventiva revela necrópole de 3.500 anos, joias em ouro e rituais do Bronze Médio; achados expostos em Miskolc.

Hungria: necrópole de 3.500 anos em Bükkábrány revela tumbas, joias em ouro e rituais do Bronze Médio

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Hungria: necrópole de 3.500 anos em Bükkábrány revela tumbas, joias em ouro e rituais do Bronze Médio

Por Chiara Lombardi — Em uma escavação preventiva realizada antes da retomada das obras na mina de lignite a céu aberto gerida pela MVM Mátra Energia Zrt., em Bükkábrány, no interior da Hungria, emergiu um capítulo profundo do passado: uma vasta necrópole e um conjunto de artefatos que conectam o Neolítico ao período medieval.

O levantamento arqueológico, conduzido pelo time do Herman Ottó Múzeum, com base em Miskolc, sob a direção de Németh Attila, trouxe à luz achados datáveis desde cerca de 5500 a.C. (Neolítico médio) até idades históricas posteriores. No centro desta descoberta está um grande cemitério da idade do bronze, com entre 150 e 160 túmulos organizados em conjuntos regulares — um padrão que aponta para práticas rituais bem estabelecidas e uma comunidade socialmente ordenada.

As sepulturas apresentam uma ritualística precisa: os corpos aparecem em posição encolhida, joelhos dobrados em direção ao quadril, e um esquema de orientação que parece codificado — os homens são dispostos com a cabeça voltada para o oeste e as mulheres para o leste. Em vários túmulos foram identificados restos de caixões de carvalho ou troncos escavados, elementos raros que denotam uma atenção cimentada no rito funerário e no respeito pelo corpo do falecido.

Ao lado dos mortos, objetos cotidianos e de prestígio narram identidades e papéis sociais: tacas, ânforas, tigelas, além de joias e ornamentos pessoais. Entre os achados mais notáveis estão uma taca praticamente intacta com cerca de 3.500 anos, um espinhoz de bronze e um punhal do mesmo material. A presença de elementos em ouro, especialmente decorações para véus e pequenos aplique s destinados a tecidos, sugere a existência de indivíduos de alto estatuto — o ouro, aqui, funciona como um espelho do prestígio social e da diferenciação interna da comunidade.

Uma característica arquitetônica intrigante é o fosso que circunda uma das áreas da necrópole: com 2,5 a 3 metros de largura e até 1,7 metro de profundidade, o corte tem três acessos identificados. A função exata desse fosso ainda provoca hipóteses — fortificação simbólica, demarcação ritual ou espaço liminar entre o mundo dos vivos e o dos mortos —, e convida a leitura da paisagem funerária como um cenário de transformação.

Além do cemitério, as escavações documentaram restos de habitações, áreas destinadas à extração de argila, depósitos de ossos animais e fossas que teriam servido a banquetes coletivos. Esses elementos domésticos permitem reconstruir práticas alimentares, ritos comunitários e a economia material da população que ocupou o sítio.

Parte do material já está acessível em Miskolc, no depósito arqueológico aberto ao público em 2024, onde visitantes podem acompanhar de perto o trabalho dos arqueólogos. Os pesquisadores esperam organizar uma exposição com as peças mais significativas, proporcionando ao público a experiência direta de um achado que é ao mesmo tempo documento e eco cultural de identidades passadas.

Como analista cultural, não posso deixar de notar que escavações como esta funcionam como um espelho do nosso tempo: ao desenterrar práticas funerárias, ornamentos e espaços coletivos, somos convidados a questionar os códigos que organizavam a vida social há milênios — e a reconhecer nos detalhes do cotidiano antigo um roteiro oculto que ainda informa noções de status, memória e pertença.