Isabella Ferrari leva a Itália a Cannes com 'Roma Elastica' e reflete: "A beleza me deu, mas também me tirou muito"

Isabella Ferrari em Cannes com Roma Elastica: reflexões sobre beleza, cinema italiano ausente e apoio a filmes experimentais e ao caso Regeni.

Isabella Ferrari leva a Itália a Cannes com 'Roma Elastica' e reflete: "A beleza me deu, mas também me tirou muito"

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Isabella Ferrari leva a Itália a Cannes com 'Roma Elastica' e reflete: "A beleza me deu, mas também me tirou muito"

Por Chiara Lombardi — Em um gesto que mistura elegância e resistência cultural, Isabella Ferrari desembarca em Cannes como porta-voz de uma Itália ausente das principais seleções do festival. A atriz, envolta em sua conhecida sensualidade discreta, estrela a coprodução ítalo-francesa Roma Elastica, dirigida por Bertrand Mandico, que a escolheu após uma carta de admiração enviada ao seu endereço artístico.

Na película — protagonizada por Marion Cotillard no papel de uma atriz em gravação nos anos 80 — Mandico constrói um tributo aos mestres do cinema italiano, com ecos que remetem a Fellini: um realismo mágico que desafia convenções e a comercialização. "Ele me escreveu uma carta de admiração e disse que me via como uma ícone do cinema italiano", conta Ferrari, sem revelar muito do enredo, como quem preserva um segredo de câmera.

O cenário, porém, tem uma contradição clara. Cannes, o palco central do circuito cinematográfico que historicamente acolheu a nossa cinematografia, chega a 2026 com uma representatividade italiana tímida — sem títulos nas seções principais e sem a presença esperada da Quinzaine. "A ausência da Itália em Cannes é uma notícia que se comenta sozinha; é embaraçoso", observa Isabella Ferrari, com o olhar crítico de quem entende que festivais são espelhos do tempo cultural.

Houve tentativas oficiais de explicar o vácuo: produtores teriam preferido outros festivais, disse a secretaria de cultura em Berlim. Ferrari rebate com uma análise menos burocrática e mais de quem vive sets e roteiros. "Talvez falte coragem para experimentar, ou os filmes não estavam prontos", sugere ela, lembrando que, no ano anterior, a pequena obra Le città di pianura foi acolhida por Un certain regard e hoje lidera indicações ao David di Donatello. A única presença claramente italiana em Cannes, neste ano, é um filme coproduzido com a França.

Além da frustração pela falta de espaço em Cannes, Ferrari toca em outra ferida: a recusa de financiamento público a projetos que investigam memórias dolorosas da nação. Ela fala, em tom comovido, sobre o documentário não financiado acerca de Giulio Regeni. "Que venham filmes que vendem, mas o dinheiro público deve ir primeiro para quem experimenta, para quem tem dificuldade em encontrar público. Um país que não investe na própria identidade cinematográfica renuncia a se contar para o mundo", afirma. A atriz elogia a dignidade da família Regeni diante do sofrimento e questiona a injustiça de não aprofundar essa história.

No plano pessoal e profissional, Ferrari admite a ambivalência do estereótipo estético: "A beleza me deu, mas também me tirou muita coisa", confessa, abrindo um ponto de reflexão que vai além do simples comércio da imagem. Ela recorda parcerias e encontros, entre eles momentos com Carlo Verdone: "Com Verdone nós falávamos apenas de medicamentos" — uma frase que soa como uma ironia triste sobre a forma como a intimidade e o trabalho às vezes se reduzem a banalidades.

Hoje, aos olhos do mercado global, Isabella Ferrari é também uma embaixadora da beleza contemporânea: desfilou ao lado de nomes como Jane Fonda, Andie MacDowell e Gillian Anderson. Ainda assim, sua busca é outra — a da "pepita de ouro": um realizador com olhar original. Nos últimos meses ela filmou três projetos muito distintos — com Mandico, com Pupi Avati e também sua primeira experiência no circuito americano, uma comédia produzida pela Universal — ampliando, assim, um repertório que transita entre o comercial e o experimental.

O que torna essa trajetória interessante não é apenas a consagração: é a maneira como Ferrari encarna o roteiro oculto da sociedade. Sua carreira é um espelho do nosso tempo, onde a indústria, a política cultural e os afetos se entrelaçam em cenas que pedem interpretação mais do que aplauso. Em Cannes, ela representa essa insistência em se nomear, ver e resistir — mesmo quando o festival não tem lugar para a nossa voz principal.