Crise da Leitura na Itália: 1 em 10 é, na prática, analfabeto e o vocabulário se empobrece

PIAAC/OCDE mostra: 1 em 10 italianos é analfabeto funcional; vocabulário encolhe e escola tem parcela da responsabilidade. Como reverter a crise?

Crise da Leitura na Itália: 1 em 10 é, na prática, analfabeto e o vocabulário se empobrece

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Crise da Leitura na Itália: 1 em 10 é, na prática, analfabeto e o vocabulário se empobrece

Por Chiara Lombardi — Em um espelho do nosso tempo, os números revelados pelo PIAAC — Programme for the International Assessment of Adult Competencies — administrado pela OCDE, traçam um retrato que tem tudo a ver com memória coletiva e com o roteiro oculto da sociedade. O segundo ciclo do estudo, aplicado em 2023 e divulgado em dezembro de 2024, não exige que os cidadãos decifrem Hegel nem resolvam equações diferenciais: pede o básico para viver como adulto numa sociedade moderna — entender textos, manejar números e solucionar problemas. E mesmo esse básico parece estar em crise na Itália.

Os dados são contundentes: 35% dos adultos entre 16 e 65 anos obtêm pontuação igual ou inferior ao Nível 1 em literacy, ou seja, conseguem entender no máximo textos curtos e com informações claramente indicadas. Mais alarmante: 10% compreendem apenas frases simples e isoladas. Traduzindo em termos práticos, um italiano em cada dez é, de fato, analfabeto funcional — lê as palavras, mas não lhes dá sentido numa dimensão que permita participar plenamente da vida cívica, cultural e profissional.

Na comparação internacional, a Itália ocupa a 26ª colocação entre 31 países avaliados, ficando na lanterna entre as grandes economias industriais. Apenas 5% dos italianos alcançam os níveis altos de competência — frente a uma média OCDE de 12% — revelando também um déficit de excelência: os «melhores» são a metade do observado globalmente. E o quadro não é novo: em 2012 o índice de analfabetismo funcional já era de 28%. Em uma década, portanto, não houve melhoria; houve retrocesso de sete pontos percentuais.

Ao lado desse fenômeno mensurável cresce outro, mais sutil e talvez mais corrosivo: o vocabulário empobrecido. Estudos apontam que o vocabulário ativo dos jovens italianos ronda as 800 palavras — contra cerca de 1.500 das gerações anteriores. Vinte termos dominam um terço das conversas cotidianas. Em italiano, o verbo «fare» devora nuances — faz-se uma passeggiata, una domanda, una scelta — e, em português, análogos como «fazer» idem. Qualquer avaliação estética ou moral concentra-se em um reduzido grupo de adjetivos: «bello/bonito», «brutto/feio», «carino/bonito», «folle/louco» — um repertório que achatou a capacidade de distinguir, de modular juízos, de polir a linguagem do pensamento.

Se encararmos a escola como cenografia desse drama, a responsabilidade pública é óbvia. Faltam políticas sistemáticas de promoção da leitura, formação docente focada em compreensão crítica e vocabularização, e recursos para bibliotecas e atividades extracurriculares que fomentem o hábito leitor. Não se trata apenas de frear videogames ou redes sociais — temas fáceis para o senso comum —, mas de redesenhar trajetórias de ensino que priorizem a profundidade sobre a superfície.

As consequências extrapolam a sala de aula: um país que empobrece seu léxico empobrece também sua democracia, sua capacidade de avaliar informações complexas, de resistir à desinformação e de inovar. O problema é social e simbólico; é um reframe da realidade que afeta empregos, participação cívica e a própria memória cultural.

Qual é o roteiro possível para a virada? Investimentos precoces na leitura familiar, currículos que integrem explicitamente ensino de compreensão leitora e ampliação de vocabulário, formação contínua de professores, programas de alfabetização para adultos e a requalificação das bibliotecas como centros vivos de cultura. Não se trata de uma reforminha cosmética: é um projeto de longa duração que toca identidade e futuro.

À primeira vista, a estatística é um número frio. Mas, como em um filme bem dirigido, ela mostra mais do que um momento: revela a cena inteira, o cenário de transformação que estamos vivendo. Perguntar-se «por que» — e agir sobre as respostas — é a única maneira de transformar esse espelho embotado em um vidro que reflete e ilumina, e não que distorce.