Kan Yasuda na Biennale di Venezia: pedras levigadas, portas sem porta e a escuta do eu
Kan Yasuda na Biennale di Venezia: pedras polidas e portas ambíguas que convidam a uma travessia interior e reflexiva sobre arte e percepção.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Kan Yasuda na Biennale di Venezia: pedras levigadas, portas sem porta e a escuta do eu
Por Chiara Lombardi
Naquele corredor entre memória e superfície, a Biennale di Venezia revela outro de seus espelhos: a obra de Kan Yasuda (n. 1945). Em uma exposição colateral oficial à 61ª Biennale Arte, na Fondazione Wilmotte, em Cannaregio, Yasuda apresenta um conjunto de peças que parecem reduzir a escultura ao gesto mais íntimo — pedras polidas, portas que não são exatamente portas, superfícies que ecoam silêncio. A experiência proposta é simples e radical: lembrar que a arte é um viagem interior.
Quem se lembra da leitura de 101 histórias zen compreenderá o efeito. Como no famoso koan do “som de uma só mão”, as obras de Yasuda não clamam por interpretação imediata, mas por uma abertura atenta. Uma pedra levigada — grande ou pequena, o tamanho é uma convenção questionada — repousa com uma presença que pode ser tanto monumental quanto íntima. Uma porta flutua, ambígua: atravessá-la pode ser gesto físico ou ato de percepção. E aqui ressoa a poesia clínica de Ronald D. Laing (1927-1989), que, em 1970, usando imagens do Sutra do Diamante, escreve sobre portas que talvez nunca tenham existido: é o eu que atravessa, ou se ilude de atravessar.
Há, no trabalho de Yasuda, uma afinidade aparente com a tradição de Henry Moore (1898-1986) — aquela celebração da forma orgânica, das cavidades e volumes. Mas o enquadramento muda: lido à luz do Zen e da direção contemplativa, o gesto escultórico de Yasuda converte-se num rito de passagem. Não se trata de mera formalidade, mas de um convite a reavaliar o papel do objeto como espelho do nosso tempo e como dispositivo de reframe da realidade.
O diálogo com a psicologia ocidental é outro fio que percorre a mostra. Desde o training autógeno de Schultz até as imagens visionárias de Carl Gustav Jung (1875-1961) — lembramos a repercussão de suas páginas do Livro Vermelho, expostas na Biennale de 2013 —, a busca por estados de experiência existencial profunda aparece como um terreno comum entre Oriente e Ocidente. Antropologia, rito de passagem, “portas da percepção”: são conceitos que cruzam escritores, cientistas e artistas ao longo do século XX e agora se materializam nas obras de Yasuda.
Na Fondazione Wilmotte, a curadoria permite que cada peça respire; o espaço canaliza a atenção do visitante e transforma o percurso num exercício quase litúrgico. É como se a exposição fosse um roteiro oculto da sociedade, um pequeno altar onde se ensaia a possibilidade de compreender que atravessamos portas sem porta — porque a verdadeira travessia é interna.
Ao público que peregrina pela Biennale, Yasuda oferece menos respostas e mais um convite: desacelerar, olhar a superfície polida de uma pedra e reconhecer nela a paisagem do eu. Em tempos de estímulos vertiginosos, essas obras funcionam como âncoras. A escultura volta a ser, então, um gesto de escuta — não apenas do mundo, mas do que habitamos por dentro.
Se a arte contemporânea é o laboratório onde se testam formas de sentido, a mostra de Kan Yasuda na Biennale di Venezia é um lembrete elegante e necessário: mais do que espetáculo, a arte pode ser uma itinerância íntima, um mapa para atravessar portas que talvez não existam — ou que sempre existiram, esperando somente que as percebamos.