Monica Bellucci é mãe inquieta em Ketticè, novo coming-of-age de Giovanni Tortorici
Monica Bellucci vive mãe frustrada em Ketticè, novo filme de Giovanni Tortorici, retrato íntimo da adolescência em Palermo (estreia 3 de setembro).
RESUMO ✦
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Monica Bellucci é mãe inquieta em Ketticè, novo coming-of-age de Giovanni Tortorici
Em Ketticè, apresentado no 79º Festival de Locarno, Monica Bellucci encarna uma figura materna marcada pela frustração e pelas convenções sociais. O segundo longa de Giovanni Tortorici, produzido entre outros por Luca Guadagnino, desenha um retrato íntimo da adolescência em Palermo, em 2012, e coloca no centro da cena a tensão entre gerações como um espelho do nosso tempo.
O filme segue a rotina de Giulio, um rapaz de 16 anos cujo cotidiano se divide entre escola, motorinos, primeiros amores, Facebook e noites com os amigos. No núcleo familiar, porém, a comunicação é quase inexistente: pais e filho parecem falar línguas distintas. A entrada de Ketty, uma colega imprevisível e aparentemente livre de amarras, inaugura um refúgio comum em que amizade e descoberta pessoal se confundem.
Interpretado por Salvatore Gallina, Giulio atravessa um ano escolar intenso ao lado de Rachele Testagrossa, enquanto o universo adulto segue discursando sem escutar. O filme constrói, com coragem e sem filtros, a cartografia da formação da identidade: as amizades surgem como o primeiro território onde se aprende a se definir, uma espécie de roteiro oculto da sociedade em miniatura.
No centro desse microcosmo familiar, Monica Bellucci é a mãe aristocrática esmagada pelas expectativas de esposa e mãe. 'É uma vítima de um papel social', disse a atriz em encontro com a imprensa em Locarno. Essa frustração se manifesta de maneiras sutis e dolorosas: o relacionamento com o corpo e com a comida aparece como uma busca de compensação; uma cena a mostra adormecida diante da televisão, cercada por snacks. A voz do personagem funciona como um instrumento narrativo – quando ela fala, ela grita – e escancara a tensão permanente com o filho.
O embate entre mãe e filho evolui para uma espécie de 'humilhação recíproca', segundo Bellucci, expondo um conflito geracional que vai além do confronto doméstico. É nesse limiar entre cuidado e violência simbólica que o filme encontra sua força dramatúrgica: a família aristocrática deixa transparecer expectativas sufocantes, enquanto os jovens buscam espaços de liberdade que desafiam o status quo.
Ambientado em 2012 e com olhar atento aos detalhes sociais e tecnológicos daquela época, Ketticè utiliza o dialeto e os nomes como âncoras culturais: o título deriva do apelido de Ketty no vernáculo siciliano, conferindo autenticidade e densidade aos laços locais da narrativa. Produzido por uma equipe que inclui o nome de Luca Guadagnino, o filme chega às salas italianas em 3 de setembro, com pré-estreia na Sicília em 27 de agosto, pela distribuidora PiperFilm.
Mais do que um coming-of-age, Ketticè funciona como um estudo sobre o silêncio entre as gerações e sobre como as aparências sociais atuam como moldes invisíveis. Em sua leitura, Bellucci oferece uma performance que não busca compaixão fácil, mas antes revela as fissuras de um papel imposto: a mãe que esqueceu da própria feminilidade, que dorme exausta e que, ainda assim, mantém uma energia destrutiva quando se dirige ao filho. Como observadora cultural, vejo nesse retrato o eco de uma sociedade que ainda aprende a ouvir, e um convite para reconsiderar os pequenos gestos que moldam identidades.