La Fenice e Biennale: o impasse de Veneza entre cultura, política e imagem global
Crise em Veneza: demissão de Beatrice Venezi na La Fenice e polêmica sobre artistas russos na Biennale, entre cultura, política e financiamento europeu.
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La Fenice e Biennale: o impasse de Veneza entre cultura, política e imagem global
Por Chiara Lombardi — Em um capítulo que mais parece um longo movimento em ritornello, La Fenice de Veneza encerra a colaboração com a maestrina Beatrice Venezi. Após meses de controvérsias e confrontos, e a um mês e meio da aclaração do voto do último março — quando o Conselho de Indirizzo havia oficialmente conferido a ela o papel de diretora de orquestra com início previsto para outubro — a Fundação decidiu demitir a maestra e anular todas as futuras colaborações.
O soberano da decisão foi o sovrintendente Nicola Colabianchi, que justificou a medida não por um debate cultural abstrato, mas por “as reiteradas e graves declarações públicas do maestro, ofensivas e lesivas do valor artístico e profissional da Fundação e da sua orquestra”. Em foco estiveram, em particular, as declarações concedidas ao jornal argentino La Nación, onde Venezi afirmara: "Eu não tenho padrinhos, esta é a diferença. Não venho de uma família de músicos. E esta é uma orquestra onde as posições se transmitem praticamente de pai para filho".
O episódio, entretanto, não é apenas sobre palavras ou uma demissão administrativa: ele funciona como um espelho do nosso tempo. As tensões que levaram à ruptura foram alimentadas por greves, manifestações, distribuição massiva de panfletos e apelos públicos das próprias maestranze, que consideravam a maestra inadequada ao currículo do teatro veneziano, chegando a pedir a demissão do sovrintendente — um coro que, em algumas sessões, chegou a gritar "Colabianchi, demite-se".
O contexto institucional também sofreu abalos: em 11 de março, o conselheiro do Ministério da Cultura, Alessandro Tortato, demitiu-se em sinal de rutura, por entender que a nomeação havia sido excessivamente “política”. Em contrapartida, o ministro da Cultura, Alessandro Giuli, reiterou pública e integral confiança em Colabianchi, sublinhando que a decisão foi assumida "em autonomia e independência".
Enquanto uma polémica se resolve — ainda que com cicatrizes — outra se mantém aberta, exibindo o roteiro oculto da cultura contemporânea: a participação de artistas russos (e também israelenses, segundo parte do debate) na 61ª Esposição Internacional de Arte da Biennale di Venezia. O ministro Giuli anunciou que não comparecerá às jornadas de pré-abertura (6 a 8 de maio) nem à cerimônia de inauguração marcada para 9 de maio, gesto que reflete as pressões políticas e morais que atravessam o evento.
A Biennale, alvo de petições e apelos públicos, decidiu excluir das premiações os artistas "dos países acusados de crimes contra a humanidade" (citação que tem sido aplicada a Rússia e Israel no debate público). Ao mesmo tempo, a instituição enfrenta a intimidação da Comissão Europeia, que ameaçou suspender um financiamento de 2 milhões de euros, e acusações de ter tentado contornar sanções relacionadas à invasão da Ucrânia.
Na prática, o pavilhão russo permanecerá aberto apenas por três dias — de 6 a 8 de maio — e terá uma prévia reservada à imprensa, com uma performance prevista. A decisão de limitar a presença física e o acesso do pavilhão torna-se mais um símbolo: em Veneza, o palco artístico virou um palco diplomático, onde o eco cultural de cada escolha reverbera no cenário global.
Mais do que um conflito administrativo ou uma guinada política, estes episódios configuram um reframe da nossa relação com a arte pública: quem define a legitimidade cultural quando a ética internacional entra em cena? Em que medida um teatro histórico como La Fenice pode — ou deve — proteger sua autonomia artística frente à tempestade das narrativas políticas? São perguntas que permanecem no ar, como notas suspensas que pedem um desfecho cuidadoso e corajoso.